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Infelizmente, a killifilia brasileira ainda é carente de memória histórica registrada. Muitas histórias de criadores, coletas, linhagens, intercâmbios, exposições e espécies mantidas no país acabaram se perdendo com o tempo. A UBK acredita que preservar essa memória é tão importante quanto preservar os próprios peixes. Por isso, convidamos criadores, antigos e atuais, e todos os aficionados por killifishes a compartilhar conosco suas experiências, lembranças, fotografias, documentos e relatos. Conte sua história com esta espécie e também com a killifilia brasileira. Cada registro pode ajudar a reconstruir uma parte importante da nossa história e impedir que ela se perca novamente.
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⇒ Descoberto por: Ricardo dos Reis Suzart, em fevereiro de 2003, nas proximidades de Macaúbas, Bahia.
Hypsolebias macaubensis é um pequeno peixe anual endêmico da drenagem do rio Paramirim, bacia do rio São Francisco, no estado da Bahia. Conhecida a partir de uma poça temporária da Caatinga situada nas proximidades de Macaúbas, a cerca de 680 metros de altitude, a espécie foi coletada em fevereiro de 2003 por Ricardo dos Reis Suzart e descrita cientificamente em 2006 por Wilson J. E. M. Costa e Suzart .
Os machos atingem aproximadamente 3,9 cm de comprimento padrão e apresentam corpo cinza-claro marcado por barras discretas e pontos branco-azulados. As nadadeiras ímpares são predominantemente amarelas, pontilhadas de branco ou azul-claro, destacando-se a faixa negra que acompanha a margem da nadadeira anal. As fêmeas apresentam coloração mais discreta, com numerosas barras cinza-escuras e pequenas manchas negras distribuídas pelo corpo e pedúnculo caudal.
Como típico peixe anual da Caatinga, H. macaubensis depende de pequenas poças que surgem durante o período chuvoso e desaparecem na estação seca. A sobrevivência entre os ciclos de inundação ocorre através dos ovos resistentes à dessecação, que permanecem enterrados no substrato até o retorno das chuvas.
A espécie apresenta uma situação de conservação preocupante. Sua distribuição é extremamente limitada e não foi encontrada durante levantamentos de campo posteriores utilizados em um amplo estudo sobre os rivulídeos anuais da Caatinga. Isso não permite considerá-la extinta, mas torna urgente confirmar a persistência de suas populações e localizar novos ambientes adequados na drenagem do Paramirim.
Atualmente, H. macaubensis é considerada Em Perigo (EN) tanto na avaliação global da IUCN, pelo critério B2ab(ii,iii,iv), quanto na lista oficial brasileira, condição mantida na atualização nacional de 2026. A espécie também integra o PAN Rivulídeos.
Explore a ficha abaixo e conheça uma das espécies mais enigmáticas de Hypsolebias: um peixe conhecido de uma pequena área da Caatinga baiana, descrito há duas décadas e cuja persistência na natureza ainda precisa ser confirmada por novos levantamentos de campo.
Simpsonichthys macaubensis Costa & Suzart, 2006 — combinação original.
Hypsolebias macaubensis (Costa & Suzart, 2006) — combinação atualmente válida.
O epíteto específico macaubensis faz referência ao município de Macaúbas, Bahia, região onde a espécie foi descoberta. O nome é formado pelo topônimo Macaúbas acrescido do sufixo latino -ensis, utilizado para indicar procedência geográfica, significando literalmente “de Macaúbas”.
Informações sobre criação de killifishes. Histórico da espécie em cativeiro, criação no Brasil e no Mundo, dicas de manejo, manutenção e procriação, populações e geolocalização. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Populações com Código de Coleta (Rastreabilidade Alta)
Estas populações possuem dados precisos de local, data e coletor. Devem ser mantidas estritamente puras.
Os marcadores não significam a localização exata da população desta espécie. A intenção é apenas mostrar um aspecto geral da distribuição geográfica.
Informações científicas sobre a espécie, dados sobre morfometria, características científicas diferenciadas e história da espécie. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Diagnose e
Morfometria
Artigo Especial
Tipologia
e História
Material sobre características dos habitats e biótopos desta espécie, bem como riscos específicos e iniciativas de preservação. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Distribuição
e Biótopo
Ecologia e
Simpatria
Há registro de ocorrência simpátrica de Hypsolebias macaubensis com Cynolebias obscurus na região de Macaúbas, Bahia. A literatura referente a C. obscurus descreve o ambiente como pequenas poças sazonais residuais inseridas em uma paisagem fortemente modificada por atividades agrícolas. A correspondência exata entre essa ocorrência e a localidade-tipo de H. macaubensis, entretanto, necessita ser confirmada.
Conservação
Hypsolebias macaubensis apresenta uma situação de conservação particularmente preocupante em razão de sua distribuição extremamente restrita, da intensa transformação da paisagem onde ocorre e, principalmente, da incerteza atual quanto à persistência de sua população conhecida.
A espécie é conhecida da drenagem do rio Paramirim, na bacia do rio São Francisco, no município de Macaúbas, Bahia. A descrição original indica como localidade-tipo uma poça temporária próxima a Macaúbas, aproximadamente em 13°00'S, 42°30'W e 680 m de altitude. Essas coordenadas são arredondadas e não devem ser interpretadas como a localização exata da poça, o que dificulta a avaliação retrospectiva das transformações ocorridas especificamente no habitat original. A série-tipo permanece representada pelos lotes UFRJ 6385, UFRJ 6105 e UFRJ 6106.
A vulnerabilidade da espécie deve ser compreendida à luz da ecologia peculiar dos peixes anuais. H. macaubensis depende de ambientes temporários que alternam uma fase aquática, durante o período chuvoso, com uma fase completamente seca. Durante esta última, a continuidade da população depende dos ovos resistentes depositados no substrato. Consequentemente, uma poça seca não representa um habitat desocupado: o próprio solo constitui parte essencial do ciclo de vida da espécie. Intervenções como aração, compactação e nivelamento do terreno, drenagem, escavação de reservatórios, abertura de estradas e modificações do escoamento superficial podem, portanto, comprometer uma população mesmo quando não existe água visível.
Esse aspecto assume especial importância em Macaúbas. Na pesquisa territorial realizada para a espécie mostrou que a região correspondente à sua ocorrência histórica está inserida em uma paisagem rural submetida à agricultura, pecuária, infraestrutura viária e diferentes formas de manejo e armazenamento de água. Documentos territoriais registram intervenções destinadas à ampliação e regularização da disponibilidade hídrica na Bacia do Paramirim, incluindo barragens, reservatórios, barreiros, barragens subterrâneas e outras estruturas. Entretanto, devido à baixa precisão da coordenada original, não existe atualmente base documental suficiente para atribuir a perda ou alteração da localidade-tipo a uma intervenção específica. Assim, não é possível afirmar que a poça original tenha sido aterrada, drenada, transformada em lavoura ou reservatório, cortada por estrada ou destruída por determinado empreendimento.
Uma informação ecológica posterior, entretanto, reforça a preocupação com a transformação do habitat. Costa (2014), ao descrever Cynolebias obscurus, registrou explicitamente sua ocorrência em simpatria com Hypsolebias macaubensis. O ambiente associado a C. obscurus foi caracterizado como pequenas poças residuais, com cerca de três metros de largura, estendendo-se paralelamente a uma estrada por aproximadamente um quilômetro. Segundo a descrição, a área circundante encontrava-se convertida em plantações, sem vestígios aparentes do habitat original.
Esse registro é extremamente relevante para compreender as pressões existentes sobre H. macaubensis, mas deve ser interpretado com cautela. A afirmação publicada confirma a simpatria entre as duas espécies, porém não foi localizado, durante o presente levantamento, um lote de H. macaubensis associado à coleta de C. obscurus que permita utilizar esse episódio como um registro material posterior da primeira espécie. Dessa forma, a descrição do ambiente fornece evidência importante sobre o grau de transformação de pelo menos uma localidade onde a ocorrência conjunta foi registrada, mas não permite afirmar que aquela seja necessariamente a exata poça da série-tipo de H. macaubensis.
A maior preocupação conservacionista decorre da dificuldade de reencontrar a espécie. Em amplo estudo sobre os rivulídeos anuais da Caatinga publicado em 2018, H. macaubensis foi uma das poucas espécies válidas que não puderam ser incluídas na amostragem porque não foram encontradas durante levantamentos de campo recentes. Esse insucesso é particularmente significativo porque o estudo envolveu campanhas direcionadas aos rivulídeos anuais da região e conseguiu amostrar praticamente todas as demais espécies consideradas no grupo analisado.
A ausência de reencontro não constitui, isoladamente, evidência de extinção. Populações de peixes anuais podem apresentar grande variabilidade temporal na emergência, dependendo da duração e intensidade das chuvas, do enchimento das poças e das condições necessárias para a eclosão dos ovos. Uma população pode, portanto, permanecer representada pelo banco de ovos existente no substrato mesmo em temporadas nas quais indivíduos adultos não são observados. Ainda assim, sucessivos insucessos de amostragem assumem especial importância quando associados a uma distribuição extremamente restrita e a um ambiente submetido a forte transformação antrópica.
Atualmente, Hypsolebias macaubensis encontra-se classificada globalmente como Em Perigo (EN), segundo o critério B2ab(ii,iii,iv), em avaliação realizada em 18 de maio de 2022. O enquadramento indica preocupação relacionada à pequena área de ocupação e ao declínio continuado inferido ou projetado da área de ocupação, da qualidade/extensão do habitat e do número de localidades ou subpopulações.
No Brasil, a espécie também está oficialmente classificada como Em Perigo (EN) na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, conforme a atualização de 2022. Avaliações nacionais anteriores chegaram a tratá-la como Criticamente em Perigo (CR). Essa mudança de CR para EN não deve ser interpretada automaticamente como recuperação da população, pois alterações de categoria podem decorrer de revisão das informações disponíveis e da aplicação dos critérios de avaliação, sem necessariamente representar melhora efetiva das condições no ambiente natural.
A espécie também está contemplada pelo Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Peixes Rivulídeos Ameaçados de Extinção – PAN Rivulídeos, 2º ciclo, demonstrando seu reconhecimento como alvo prioritário das políticas brasileiras de conservação. Entretanto, não foi localizada, no levantamento realizado, evidência de proteção territorial específica da localidade histórica por unidade de conservação, RPPN ou outra área protegida criada especificamente para salvaguardar sua população. Existe, portanto, uma diferença importante entre a proteção e o planejamento conservacionista direcionados à espécie e a proteção física efetiva de seu habitat conhecido.
O conjunto das evidências disponíveis aponta para quatro fatores principais de preocupação: distribuição extremamente restrita; transformação agrícola e hidrológica da paisagem; ausência conhecida de proteção territorial específica do habitat; e dificuldade de reencontro da população em levantamentos posteriores. A esses fatores soma-se uma limitação fundamental: a localização pouco precisa da coleta original impede que se determine atualmente, com segurança, a integridade da localidade-tipo.
Por essa razão, Hypsolebias macaubensis deve ser considerada espécie de alta prioridade para prospecções direcionadas. Uma das medidas mais importantes seria recuperar informações primárias associadas às coletas históricas — fichas de campo, etiquetas originais, fotografias, cadernos de coleta, coordenadas não publicadas e registros mantidos em coleções científicas — capazes de refinar a localização das ocorrências. A partir de uma coordenada confiável seria possível realizar buscas sistemáticas durante períodos hidrologicamente favoráveis e reconstruir a transformação da paisagem por séries históricas de imagens orbitais.
Caso uma população seja reencontrada, sua conservação deverá considerar não apenas a água e os indivíduos adultos, mas todo o complexo da poça temporária e seu substrato, inclusive durante a estação seca. A manutenção da depressão natural, do regime de inundação, da estrutura e integridade do solo e da drenagem local é indispensável para preservar o banco de ovos que garante a continuidade da população entre ciclos chuvosos.
Diante das informações atualmente disponíveis, não há evidência suficiente para considerar Hypsolebias macaubensis extinta, mas também não há base para assumir que sua população histórica permaneça segura. A integridade atual da localidade-tipo permanece incerta e os levantamentos científicos publicados demonstram dificuldade em reencontrar a espécie. Em uma paisagem na qual habitats temporários vêm sofrendo profundas modificações, essa incerteza deve ser interpretada segundo o princípio da precaução.
Assim, a prioridade conservacionista para H. macaubensis não é apenas impedir novas alterações ambientais, mas sobretudo redescobrir e georreferenciar suas populações, verificar a persistência do banco de ovos e proteger imediatamente os ambientes temporários remanescentes. Até que novas populações sejam confirmadas, a combinação entre endemismo extremo, habitat altamente especializado, transformação territorial e ausência de reencontros recentes faz de Hypsolebias macaubensis uma das espécies de rivulídeos da bacia do Paramirim que mais justificam esforços específicos de prospecção, monitoramento e conservação de habitat.
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