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Infelizmente, a killifilia brasileira ainda é carente de memória histórica registrada. Muitas histórias de criadores, coletas, linhagens, intercâmbios, exposições e espécies mantidas no país acabaram se perdendo com o tempo. A UBK acredita que preservar essa memória é tão importante quanto preservar os próprios peixes. Por isso, convidamos criadores, antigos e atuais, e todos os aficionados por killifishes a compartilhar conosco suas experiências, lembranças, fotografias, documentos e relatos. Conte sua história com esta espécie e também com a killifilia brasileira. Cada registro pode ajudar a reconstruir uma parte importante da nossa história e impedir que ela se perca novamente.
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Brasil
Hypsolebias virgulatus (Costa & Brasil, 2006) é um peixe-anual da família Rivulidae, descoberto por Gilberto Campello Brasil, que coletou a série-tipo em 26 de maio de 2005, em uma lagoa temporária no município de Unaí, Minas Gerais, na drenagem do rio Paracatu, bacia do rio São Francisco. A espécie foi originalmente descrita como Simpsonichthys virgulatus por Wilson J. E. M. Costa e Gilberto C. Brasil, em 2006.
Sua distribuição conhecida é extremamente restrita: a descrição original registra a espécie apenas para a localidade-tipo, situada aproximadamente 7 km do ribeirão Entre Rios, na região das várzeas do ribeirão Entre Ribeiros, drenagem do rio Paracatu.
A localidade-tipo corresponde a uma lagoa temporária de aproximadamente 3.000 m², com profundidade máxima de 0,8 m, característica dos ambientes sazonais do Cerrado utilizados pelos rivulídeos anuais. Os machos distinguem-se pelo padrão de coloração dourado, com numerosas manchas castanho-escuras a negras nos flancos e barras no pedúnculo caudal. A espécie foi encontrada isoladamente nessa lagoa, sem registro de outros peixes durante a coleta original, e atualmente é classificada como Criticamente em Perigo (CR).
A espécie foi descrita originalmente em Simpsonichthys, como integrante do subgênero Hypsolebias. Com a posterior elevação de Hypsolebias à categoria de gênero, a combinação passou a ser Hypsolebias virgulatus. Killi-Data atualmente reconhece Hypsolebias virgulatus como o nome válido.
O epíteto específico virgulatus deriva do latim virgulatus, com o sentido de marcado por listras ou faixas de diferentes cores.
O nome faz referência ao padrão cromático característico apresentado pelos machos, que combina manchas, barras e linhas de diferentes tonalidades ao longo dos flancos e das nadadeiras. A própria descrição original explicita que o nome foi escolhido em referência ao padrão de coloração do macho.
Informações sobre criação de killifishes. Histórico da espécie em cativeiro, criação no Brasil e no Mundo, dicas de manejo, manutenção e procriação, populações e geolocalização. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Populações com Código de Coleta (Rastreabilidade Alta)
Estas populações possuem dados precisos de local, data e coletor. Devem ser mantidas estritamente puras.
Os marcadores não significam a localização exata da população desta espécie. A intenção é apenas mostrar um aspecto geral da distribuição geográfica.
Informações científicas sobre a espécie, dados sobre morfometria, características científicas diferenciadas e história da espécie. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Diagnose e
Morfometria
Hypsolebias virgulatus integra o grupo de espécies relacionado a H. notatus e pode ser reconhecida pela combinação de caracteres morfológicos e cromáticos.
A espécie apresenta escamação frontal do tipo A, característica importante para sua identificação. Nos machos, a porção anterior dos flancos apresenta coloração dourada associada a numerosas manchas castanho-escuras a negras. Nas fêmeas, os flancos apresentam manchas cinza-escuras distribuídas por praticamente toda a lateral do corpo.
Entre os caracteres mais úteis para diferenciá-la de espécies próximas, especialmente H. auratus e H. trilineatus, destacam-se:
O corpo é relativamente alto, comprimido lateralmente, com perfil dorsal convexo e focinho rombo. A nadadeira caudal é arredondada e as nadadeiras peitorais são elípticas. Nos machos, as extremidades das nadadeiras dorsal e anal são pontiagudas e apresentam pequenos prolongamentos filamentosos.
| Característica | Machos | Fêmeas |
|---|---|---|
| Comprimento padrão dos exemplares examinados | 39,2–52,7 mm | 28,9–33,9 mm |
| Maior exemplar examinado | 52,7 mm | 33,9 mm |
| Altura do corpo (% CP) | 32,2–36,8 | 33,5–36,7 |
| Comprimento da cabeça (% CP) | 28,3–30,2 | 29,8–32,6 |
| Base da dorsal (% CP) | 34,3–39,6 | 21,6–23,7 |
| Base da anal (% CP) | 31,7–35,6 | 19,7–22,5 |
| Nadadeira caudal (% CP) | 31,5–34,4 | 29,8–31,9 |
CP = comprimento padrão. Os valores são provenientes da série de exemplares utilizada na descrição original.
A espécie possui 20–21 raios dorsais e 19–20 raios anais nos machos, enquanto as fêmeas apresentam 14–16 raios dorsais e 16–18 raios anais. A nadadeira caudal possui 25–27 raios, as peitorais 12–13 e as pélvicas 5–6. Foram registrados 27–28 vértebras.
Nos machos, os flancos apresentam tonalidade dourada, com manchas arredondadas castanho-escuras a negras na região anterior e aproximadamente 4–7 barras castanho-escuras na região posterior. Pequenos pontos verde-claros podem formar fileiras verticais ao longo dos flancos, alternadas com estreitas faixas castanho-alaranjadas. A nadadeira dorsal apresenta pontos claros e fileiras de pequenas marcas verde-azuladas próximas à margem distal, enquanto as nadadeiras peitorais são hialinas.
As fêmeas são mais discretamente coloridas, apresentando corpo castanho-amarelado claro com manchas cinza-escuras. Algumas manchas acima da base da nadadeira anal são alongadas e podem formar pequenas barras; na região anterocentral dos flancos, 3–4 manchas podem ser particularmente escuras e eventualmente coalescer. As nadadeiras são predominantemente hialinas.
Artigo Especial
Tipologia
e História
Material sobre características dos habitats e biótopos desta espécie, bem como riscos específicos e iniciativas de preservação. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Distribuição
e Biótopo
Hypsolebias virgulatus possui uma das distribuições geográficas mais restritas entre os rivulídeos associados à drenagem do rio Paracatu.
A espécie é conhecida da drenagem do rio Paracatu, bacia do rio São Francisco, município de Unaí, Minas Gerais, Brasil, tendo como localidade-tipo uma lagoa temporária situada aproximadamente 7 km do ribeirão Entre Rios.
Até o momento, não foi localizado um conjunto de registros georreferenciados independentes e confiáveis que permita ampliar a distribuição conhecida da espécie. Assim, é mais adequado para o site manter a distribuição conhecida como extremamente localizada, sem projetar uma área de ocorrência a partir de localidades próximas.
A espécie foi encontrada em uma lagoa sazonal isolada, com aproximadamente 3.000 m² de área e profundidade máxima de 0,8 m. No momento da coleta, a água apresentava coloração de chá, pH entre 7,9 e 8,1 e temperatura de 23,1 °C às 14h, enquanto a temperatura do ar era de 30,5 °C. A vegetação circundante correspondia ao ambiente de Cerrado.
O ambiente ocupado por H. virgulatus é, portanto, característico dos sistemas temporários utilizados pelos peixes-anuais: depressões que acumulam água durante a estação chuvosa e posteriormente secam durante o período de estiagem. A sobrevivência entre ciclos hidrológicos depende da resistência dos ovos depositados no substrato.
A associação da espécie com pequenas áreas úmidas temporárias é particularmente importante do ponto de vista conservacionista, pois a preservação da espécie não depende apenas da manutenção de cursos d'água permanentes, mas da conservação do micro-habitat sazonal completo, incluindo a depressão, seu sedimento e a área de contribuição hídrica.
Ecologia e
Simpatria
As informações disponíveis sobre a ecologia de Hypsolebias virgulatus ainda são bastante limitadas. A descrição original registra a espécie em uma lagoa temporária isolada do Cerrado e informa que nenhum outro peixe foi encontrado no ambiente durante a coleta.
Esse registro é particularmente relevante porque demonstra que, pelo menos na localidade-tipo e no momento da coleta, H. virgulatus ocupava um ambiente com aparente ausência de outros peixes. A ausência de ictiofauna permanente é compatível com a estratégia de vida dos rivulídeos anuais, que exploram corpos d'água temporários incapazes de sustentar populações permanentes de peixes durante a estação seca.
A reprodução, como nos demais rivulídeos anuais, está associada ao período de inundação das poças. Os adultos completam sua fase de vida aquática durante o período em que o ambiente permanece inundado, enquanto os ovos permanecem incorporados ao substrato durante a fase seca, reiniciando o ciclo após o retorno das chuvas.
Entretanto, não devem ser atribuídos a H. virgulatus dados detalhados de alimentação, fecundidade, duração do ciclo, diapausas ou comportamento reprodutivo obtidos de outras espécies sem evidência específica para esta espécie.
Quanto à simpatria, a situação merece uma distinção importante. Outras espécies de Hypsolebias ocorrem na região mais ampla do médio Paracatu/Unaí, e a própria descrição de 2006 registra H. fasciatus e H. gibberatus em localidades-tipo situadas aproximadamente 15 km da localidade de H. virgulatus.
Não há, entretanto, evidência na descrição original de ocorrência sintópica de H. virgulatus com essas espécies na mesma poça. Portanto, é preferível caracterizar essas ocorrências como proximidade geográfica regional, e não como simpatria efetivamente comprovada.
Conservação
Hypsolebias virgulatus é atualmente classificada como Criticamente em Perigo (CR) na Lista Nacional Oficial de Espécies Ameaçadas de Extinção. A Portaria MMA nº 148, de 7 de junho de 2022, registra a espécie na categoria CR, e o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Rivulídeos – 2º ciclo inclui H. virgulatus entre as espécies abrangidas.
A classificação de risco é coerente com a combinação de fatores que caracteriza a espécie: distribuição extremamente restrita, dependência de ambientes aquáticos temporários e intensa transformação da paisagem no entorno da localidade conhecida.
Levantamentos sobre os rivulídeos de Minas Gerais registraram que H. virgulatus era conhecida apenas de sua localidade-tipo e que as áreas de ocorrência na região do Paracatu/Unaí haviam sofrido significativa transformação relacionada à atividade agropecuária, especialmente pela conversão da vegetação nativa para áreas agrícolas.
Entre as principais ameaças potenciais e documentadas para o ambiente ocupado pela espécie destacam-se:
O principal problema para a conservação de H. virgulatus é que a proteção de um curso d'água permanente não garante, por si só, a proteção do seu habitat. O ciclo ecológico da espécie depende das pequenas depressões que acumulam água durante a estação chuvosa e que posteriormente secam. A destruição física dessas depressões pode eliminar uma população mesmo quando o rio ou ribeirão mais próximo permanece aparentemente preservado.
A situação de H. virgulatus também evidencia a importância de integrar estratégias in situ e ex situ. A própria documentação conservacionista consultada registra que há apenas uma localidade-tipo conhecida e que não havia registros de criação em cativeiro nas informações utilizadas pelo diagnóstico de conservação.
Nesse contexto, a manutenção de populações ex situ geneticamente documentadas pode representar uma ferramenta complementar para reduzir o risco de perda irreversível de material biológico caso a população silvestre desapareça. Para espécies anuais com distribuição extremamente restrita, criadores especializados podem desempenhar papel relevante na manutenção de linhagens, desde que a obtenção de matrizes, transporte, manutenção e eventual intercâmbio sejam realizados dentro da legislação aplicável e com adequada rastreabilidade de origem.
Ao mesmo tempo, a conservação ex situ não deve ser utilizada como substituta da proteção dos ambientes naturais. Para H. virgulatus, a prioridade permanece sendo a identificação, proteção e monitoramento das poças e demais áreas úmidas temporárias que sustentam a população silvestre.
Embora Hypsolebias virgulatus esteja formalmente reconhecida como espécie Criticamente em Perigo e seja contemplada por instrumentos oficiais de conservação, o reconhecimento jurídico da ameaça não significa, necessariamente, que existam ações suficientes para assegurar a persistência da espécie em seu ambiente natural. No caso de espécies com distribuição extremamente restrita e dependentes de pequenas áreas úmidas temporárias, a efetividade das políticas públicas depende de ações concretas e contínuas de localização, proteção, monitoramento e fiscalização dos ambientes conhecidos, bem como do acompanhamento das alterações no uso do solo. A existência de planos, listas oficiais e categorias de ameaça precisa ser acompanhada de mecanismos capazes de produzir resultados mensuráveis no território; caso contrário, existe o risco de que a proteção permaneça predominantemente formal enquanto o habitat continua sujeito à transformação.
Outro aspecto que merece maior atenção é a conservação ex situ realizada por criadores hobbystas especializados. A experiência acumulada pela comunidade de killifilia demonstra que aquaristas podem manter, reproduzir e documentar linhagens de peixes-anuais durante sucessivas gerações, constituindo uma rede descentralizada de salvaguarda genética potencialmente relevante para espécies ameaçadas. Entretanto, essa capacidade ainda é pouco integrada às políticas oficiais de conservação, e faltam mecanismos institucionais mais claros que permitam reconhecer, apoiar, supervisionar e incorporar criadores qualificados a programas de conservação ex situ. Em espécies extremamente restritas como H. virgulatus, a ausência de uma população ex situ legalmente estruturada e geneticamente rastreável representa uma vulnerabilidade adicional, pois eventual desaparecimento da única população conhecida poderia significar a perda simultânea do patrimônio genético existente na natureza e da possibilidade de sua manutenção sob cuidados humanos.
A conservação ex situ, evidentemente, não deve substituir a proteção do habitat natural, nem servir de justificativa para a redução dos esforços de conservação in situ. Contudo, tratá-la apenas como atividade recreativa, sem reconhecer o potencial de criadores especializados como parceiros de conservação, significa deixar de utilizar uma capacidade técnica já existente na sociedade. Uma política mais abrangente poderia estabelecer protocolos para formação de estoques de segurança, identificação individual de linhagens, registro de procedência, intercâmbio controlado de material biológico e acompanhamento genético, permitindo que instituições públicas, pesquisadores e criadores legalmente habilitados atuassem de forma complementar. Para espécies criticamente ameaçadas, a conservação efetiva deveria, portanto, combinar proteção territorial, monitoramento populacional, pesquisa científica e salvaguarda ex situ, transformando a comunidade de criadores responsáveis de mera espectadora em potencial componente de uma estratégia nacional de conservação.
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