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Infelizmente, a killifilia brasileira ainda é carente de memória histórica registrada. Muitas histórias de criadores, coletas, linhagens, intercâmbios, exposições e espécies mantidas no país acabaram se perdendo com o tempo. A UBK acredita que preservar essa memória é tão importante quanto preservar os próprios peixes. Por isso, convidamos criadores, antigos e atuais, e todos os aficionados por killifishes a compartilhar conosco suas experiências, lembranças, fotografias, documentos e relatos. Conte sua história com esta espécie e também com a killifilia brasileira. Cada registro pode ajudar a reconstruir uma parte importante da nossa história e impedir que ela se perca novamente.
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Brasil
Descrita em 1994 por Costa e Gilberto Costa Brasil, Hypsolebias trilineatus. A espécie é conhecida das várzeas do médio rio Paracatu, na bacia do rio São Francisco, em Minas Gerais, onde habita poças temporárias associadas às áreas sazonalmente inundáveis. A localidade-tipo situa-se nas proximidades de Brasilândia de Minas, próxima ao rio Paracatu, a aproximadamente 509 m de altitude. A espécie foi coletada repetidamente nessa região após sua descrição, inclusive em 1998, quando foram obtidos mais de uma centena de exemplares, demonstrando que a população histórica não estava restrita a um único evento de coleta.
Os machos possuem coloração predominantemente dourada e amarelo-ocre na região anterior do corpo, associada a três características linhas longitudinais violáceo-acastanhadas e a numerosas marcações claras nas regiões posteriores do corpo e nas nadadeiras. As fêmeas são muito mais discretamente coloridas, com corpo acinzentado e manchas escuras nas regiões laterais anteriores. A espécie está associada a uma rede de poças temporárias de várzea, e registros históricos indicam sua ocorrência desde a região de Brasilândia de Minas até áreas próximas ao distrito de Paredão de Minas, em Buritizeiro. Em 2018, essas localidades eram descritas como ainda existentes, porém fragmentadas e com a vegetação descaracterizada.
A espécie foi originalmente descrita no gênero Cynolebias. Posteriormente passou a ser tratada como Simpsonichthys e, após a reorganização taxonômica do grupo, encontra-se atualmente posicionada em Hypsolebias.
O epíteto específico trilineatus deriva do latim tri- (“três”) e lineatus (“marcado por linhas” ou “listrado”).
O nome faz referência às três linhas longitudinais de coloração violáceo-acastanhada presentes na região posterior dos flancos dos machos, característica particularmente importante na distinção de H. trilineatus de espécies próximas
Informações sobre criação de killifishes. Histórico da espécie em cativeiro, criação no Brasil e no Mundo, dicas de manejo, manutenção e procriação, populações e geolocalização. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Populações com Código de Coleta (Rastreabilidade Alta)
Estas populações possuem dados precisos de local, data e coletor. Devem ser mantidas estritamente puras.
Os marcadores não significam a localização exata da população desta espécie. A intenção é apenas mostrar um aspecto geral da distribuição geográfica.
Informações científicas sobre a espécie, dados sobre morfometria, características científicas diferenciadas e história da espécie. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Diagnose e
Morfometria
Hypsolebias trilineatus pertence ao grupo de espécies tradicionalmente associado a Hypsolebias notatus. A espécie distingue-se dos demais componentes do grupo principalmente pela combinação de flancos anteriores de coloração dourada intensa nos machos, presença de uma mancha humeral marrom-escura e pelas três linhas longitudinais violáceo-acastanhadas presentes na metade posterior dos flancos.
Nos machos, a região anterior dos flancos apresenta coloração amarelo-dourada, tornando-se mais clara posteriormente. Na metade posterior do corpo ocorre um padrão formado por três linhas longitudinais violáceo-acastanhadas, acompanhado por fileiras de pequenos pontos claros. A região anterior dos flancos também pode apresentar manchas negras, enquanto as nadadeiras ímpares são predominantemente castanho-avermelhadas, ornamentadas por pequenos pontos claros. As nadadeiras peitorais são hialinas, com tonalidade alaranjada na região ventral.
As fêmeas apresentam coloração consideravelmente mais discreta, predominantemente cinza-clara, com manchas ou barras pouco contrastantes. Podem apresentar uma ou duas manchas negras arredondadas na região anterocentral dos flancos, ventre amarelo-pálido e nadadeiras predominantemente hialinas.
Entre os caracteres morfológicos diagnósticos destaca-se ainda a presença de cinco raios na nadadeira pélvica, em contraste com seis em H. auratus e H. virgulatus, além das três linhas longitudinais dos machos.
A espécie apresenta corpo relativamente alto e comprimido lateralmente, com a maior altura corporal aproximadamente na região da inserção das nadadeiras pélvicas. A cabeça é curta, os olhos ocupam posição relativamente dorsal e o focinho é arredondado.
Nos machos, as nadadeiras dorsal e anal possuem extremidades pontiagudas e apresentam raios filamentosos nas regiões posteriores, que podem alcançar aproximadamente a altura da porção posterior da nadadeira caudal. Nas fêmeas, essas nadadeiras são arredondadas.
Os principais caracteres merísticos descritos por Costa incluem:
| Parâmetros | Machos | Fêmeas |
|---|---|---|
| Raios dorsais | 19–22 | 14–16 |
| Raios anais | 18–22 | 16–18 |
| Raios caudais | 26–27 | — |
| Raios peitorais | 13–14 | — |
| Raios pélvicos | 5 | 5 |
| Escamas longitudinais | 27 | — |
| Escamas transversais | 8 | — |
| Fileiras no pedúnculo caudal | 12 | — |
| Vértebras | 27–28 | — |
Nos machos estão presentes órgãos de contato nas escamas da região anteroventral do flanco e pequenos órgãos papilares de contato na superfície interna do raio peitoral mais dorsal, características relacionadas à reprodução.
Artigo Especial
Tipologia
e História
Material sobre características dos habitats e biótopos desta espécie, bem como riscos específicos e iniciativas de preservação. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Distribuição
e Biótopo
A distribuição conhecida de Hypsolebias trilineatus está concentrada nas várzeas do médio rio Paracatu, integrante da bacia do rio São Francisco, em Minas Gerais. O Catálogo de Peixes de Eschmeyer atualmente resume a distribuição da espécie como as várzeas do médio Paracatu, enquanto a revisão de Costa detalha sua associação com poças temporárias em ambiente de Cerrado.
A localidade-tipo situa-se nas proximidades de Brasilândia de Minas, historicamente descrita como: João Pinheiro, próximo ao rio Paracatu, nas proximidades da cidade de Brasilândia, Minas Gerais.
O ambiente corresponde a uma poça temporária associada à várzea do rio Paracatu. A localidade possui importância particularmente elevada porque foi amostrada repetidamente após a descrição da espécie, incluindo uma coleta de 1998 que resultou em 140 exemplares depositados em coleção científica.
Registros posteriores de literatura de conservação indicam que H. trilineatus também ocorria em poças temporárias até a região próxima ao distrito de Paredão de Minas, município de Buritizeiro, onde foram reconhecidas duas localidades. Em 2018 essas localidades eram descritas como ainda existentes, embora fragmentadas e com vegetação descaracterizada.
Até o momento, entretanto, não foram recuperadas coordenadas geográficas originais nem informações suficientemente detalhadas de voucher para essas duas localidades. Por isso, Paredão de Minas deve ser tratado como uma área de ocorrência histórica publicada, e não como um ponto geográfico preciso.
O habitat típico da espécie é constituído por poças temporárias de áreas de várzea, sujeitas ao enchimento durante o período chuvoso e à completa ou quase completa dessecação durante a estação seca.
Essas depressões devem ser entendidas como unidades ecológicas muito mais amplas que a lâmina d'água observada durante a estação chuvosa. O habitat inclui:
Consequentemente, uma poça seca não deve ser considerada habitat perdido apenas pela ausência de água superficial. Para uma espécie anual, o substrato seco integra o ambiente ocupado durante a fase de desenvolvimento embrionário.
Ecologia e
Simpatria
Hypsolebias trilineatus é um peixe anual, adaptado ao ciclo hidrológico altamente sazonal das poças temporárias. Durante o período de inundação, os adultos completam rapidamente seu ciclo de vida, reproduzem-se e depositam ovos no substrato. Com o progressivo desaparecimento da água, os adultos desaparecem, enquanto os embriões permanecem protegidos no sedimento em diferentes estágios de desenvolvimento.
O ciclo recomeça quando as chuvas restabelecem as condições de inundação. Essa estratégia permite que a espécie ocupe ambientes que permanecem secos durante parte considerável do ano, mas também faz com que sua sobrevivência dependa diretamente da manutenção da dinâmica natural de enchimento e secagem das depressões.
Dados disponíveis indicam também associação com ambientes de várzea densamente vegetados. Registros históricos de sua área de ocorrência mencionam a presença conjunta de outros peixes, incluindo Gymnotus carapo, Metynnis sp. e Astyanax sp.
Entre os rivulídeos, há documentação de ocorrência conjunta com Hypsolebias alternatus em ambientes temporários da região do rio Paracatu. A literatura de conservação também registra Melanorivulus paracatuensis no mesmo contexto regional. Entretanto, a ocorrência regional não deve ser automaticamente interpretada como sintopia: para demonstrar que duas espécies utilizam exatamente a mesma poça é necessário dispor de informação de coleta correspondente.
A distribuição de H. trilineatus e de outros rivulídeos do sistema do Paracatu demonstra a importância da rede de pequenas depressões temporárias da várzea, e não apenas dos grandes cursos d'água, para a manutenção da diversidade regional.
Conservação
Hypsolebias trilineatus possui histórico de avaliações que já indicavam preocupação com sua distribuição restrita e a alteração dos ambientes temporários. Em listas nacionais anteriores, a espécie foi classificada como Vulnerável (VU), inclusive na Portaria nº 445/2014.
O cenário atual é mais grave. A Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026, que estabeleceu a atual Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção — Peixes e Invertebrados Aquáticos, classificou Hypsolebias trilineatus como Criticamente Em Perigo (CR).
A situação territorial conhecida ajuda a compreender essa mudança. A espécie possui uma distribuição geográfica relativamente restrita e depende de um tipo de ambiente naturalmente fragmentado: poças temporárias inseridas nas várzeas do rio Paracatu. A revisão de conservação realizada em Minas Gerais registrou que as localidades conhecidas ainda existiam em 2018, mas já apresentavam fragmentação e descaracterização da vegetação, encontrando-se fora de áreas protegidas. O mesmo trabalho identificou a agricultura como o principal agente de modificação desses ambientes, incluindo alterações físicas das poças e exposição a pesticidas.
Entre as ameaças que devem ser consideradas estão:
É importante, entretanto, distinguir ameaças documentadas regionalmente de impactos comprovados sobre cada população. A auditoria territorial realizada para a espécie não encontrou evidência suficiente para afirmar que a localidade-tipo tenha sido destruída ou que uma determinada obra tenha provocado diretamente o desaparecimento de sua população. Da mesma forma, a persistência atual de H. trilineatus em cada uma das localidades históricas ainda necessita de confirmação de campo.
A principal lacuna atualmente não é apenas saber onde a espécie foi encontrada no passado, mas determinar quantas das antigas poças temporárias ainda permanecem ecologicamente funcionais.
A localidade-tipo possui coordenada publicada e histórico de coletas repetidas, enquanto as localidades de Paredão de Minas são conhecidas apenas de forma mais geral. A própria avaliação mineira de 2018 classificava a área de ocupação de H. trilineatus como “Dados Insuficientes”.
Por isso, a conservação da espécie deve considerar a paisagem inteira das várzeas e depressões temporárias, incluindo os períodos secos. A proteção exclusivamente da lâmina d'água durante a estação chuvosa seria insuficiente, pois os ovos permanecem no substrato durante a fase de dessecação.
A prioridade para a espécie é, portanto, identificar e proteger a rede de habitats temporários remanescentes no sistema do médio rio Paracatu, confirmar a situação atual das localidades históricas e investigar a existência de populações intermediárias entre Brasilândia de Minas e Paredão de Minas. Esse trabalho é particularmente relevante diante do atual enquadramento nacional da espécie como Criticamente Em Perigo.
Apesar do reconhecimento formal da espécie como Criticamente Em Perigo e da existência de instrumentos legais e políticas públicas voltadas à conservação dos rivulídeos, permanece uma questão importante quanto à efetividade dessas medidas no território. A proteção normativa, por si só, não garante a manutenção das pequenas poças temporárias que constituem o habitat de H. trilineatus, especialmente quando persistem processos de alteração do uso do solo, drenagem, aterramento, fragmentação e descaracterização das áreas úmidas. Também merece atenção a limitada integração entre as ações de conservação in situ e estratégias de conservação ex situ. Criadores hobbystas especializados em killifishes mantêm, em diferentes países, linhagens de espécies anuais que podem representar importante patrimônio genético e fonte de conhecimento sobre reprodução e manutenção em cativeiro. Entretanto, no Brasil, esse conhecimento e essa capacidade de manutenção ex situ ainda são pouco incorporados às estratégias institucionais de conservação, apesar de o segmento especializado poder contribuir para formação de plantéis de segurança, produção de conhecimento reprodutivo e eventual apoio a programas de recuperação populacional. A conservação efetiva de espécies como H. trilineatus exige, portanto, que a atuação dos órgãos ambientais ultrapasse a elaboração de listas e instrumentos normativos, avançando para monitoramento sistemático das populações, proteção efetiva dos habitats e estabelecimento de mecanismos transparentes e tecnicamente supervisionados de parceria com criadores e instituições capazes de manter populações ex situ. Afinal, quando uma espécie depende de poucas poças temporárias e essas localidades não são sequer acompanhadas regularmente, a existência de proteção jurídica não significa, necessariamente, que exista proteção biológica efetiva.
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