Gilberto Campello Brasil: o explorador que revelou ao mundo uma parte desconhecida dos killifishes brasileiros

Poucos nomes da história da killifilia brasileira estão tão profundamente ligados à descoberta, coleta e divulgação dos pequenos peixes temporários quanto o de Gilberto Campello Brasil.
Químico de formação, servidor público, aquarista, colecionador de cactos e apaixonado pela natureza, Gilberto percorreu diversas regiões do Brasil em busca de peixes que, na época, eram praticamente desconhecidos. Muitas dessas populações foram posteriormente estudadas e descritas pela ciência, e algumas delas deram origem a novos gêneros e espécies.
Sua trajetória é especialmente importante para a história da killifilia porque Gilberto atuava em uma época na qual as fronteiras entre o aquarismo especializado e a pesquisa científica eram muito mais
permeáveis do que hoje. Ele encontrava populações em campo, mantinha peixes vivos, observava seu comportamento, trocava informações com outros aquaristas e enviava exemplares para pesquisadores no Brasil e no exterior.
Foi assim que seu nome acabou gravado na própria taxonomia dos peixes que tanto procurou.
Mas sua história possui também um lado trágico e misterioso. Em novembro de 2008, aos 63 anos, Gilberto desapareceu no Distrito Federal. Seu destino nunca foi satisfatoriamente esclarecido e, posteriormente, ele passou a ser considerado morto.
Mesmo assim, seu legado permaneceu vivo — nos museus, nas coleções científicas, nos jardins botânicos, nos aquários e, sobretudo, nos nomes científicos de vários peixes.
Um químico que se tornou explorador de peixes
Gilberto Campello Brasil nasceu em 15 de junho de 1945, em São Paulo.
Sua formação profissional era na área de Química, e ele posteriormente desenvolveu carreira no serviço público federal, chegando a atuar junto ao Ministério do Meio Ambiente em assuntos relacionados ao meio ambiente e à qualidade ambiental. Também aparece como inventor em uma patente brasileira relacionada à produção de fosfato bicálcico desfluorizado a partir de fosfato natural, registrada no início da década de 1990.
Mas sua grande paixão pessoal estava em outro lugar: a natureza.
Desde jovem, Gilberto mantinha contato com ambientes aquáticos e demonstrava interesse pelos pequenos peixes de água doce. Com o passar dos anos, seu interesse se concentrou particularmente nos killifishes, sobretudo nos rivulídeos brasileiros.
Naquela época, estudar esses peixes significava literalmente sair à procura deles. Pequenas lagoas, brejos, depressões do terreno e poças que poderiam parecer completamente sem importância para um observador comum podiam conter populações inteiras de espécies ainda desconhecidas.
Gilberto tornou-se um desses exploradores.
A descoberta de Campellolebias brucei
Um dos episódios mais importantes de sua carreira ocorreu em 28 de novembro de 1972.
Entre Criciúma e Tubarão, em Santa Catarina, Gilberto encontrou uma pequena poça temporária contendo peixes que chamaram sua atenção. Os exemplares foram coletados e posteriormente encaminhados para pesquisadores do Uruguai, Raúl Vaz-Ferreira e Blanca Sierra de Soriano.
Os especialistas perceberam que aqueles peixes não se encaixavam adequadamente nos gêneros então conhecidos.
O resultado foi extraordinário: em 1974, os pesquisadores criaram um novo gênero, Campellolebias, e descreveram a espécie Campellolebias brucei.
O próprio gênero foi criado em homenagem a Gilberto Campello Brasil. O nome Campellolebias combina “Campello” com lebias, termo tradicionalmente utilizado em nomes de pequenos ciprinodontiformes.
A homenagem tinha uma razão muito concreta. Gilberto não havia apenas encontrado o peixe: ele havia sido responsável pela coleta que colocou aquele animal desconhecido nas mãos dos pesquisadores.
E a história não terminou aí.
Os autores da descrição registraram que Gilberto também enviara exemplares para comerciantes de aquários nos Estados Unidos. Esses peixes chegaram ao ictiólogo Bruce J. Turner, que estudou os animais vivos e forneceu informações sobre sua coloração e comportamento em aquário. Assim, uma descoberta feita em uma pequena poça brasileira percorreu um caminho que envolveu Gilberto, aquaristas norte-americanos, um pesquisador nos Estados Unidos e os ictiólogos uruguaios responsáveis pela descrição formal.
Esse episódio é uma das evidências mais interessantes da ligação direta de Gilberto com a killifilia internacional.
Gilberto e o pseudogonopódio
Durante o estudo de Campellolebias brucei, Gilberto chamou a atenção dos pesquisadores para uma característica particularmente incomum da nadadeira anal do macho.
Tratava-se do pseudogonopódio, uma estrutura resultante da modificação de raios anteriores da nadadeira anal e relacionada à inseminação interna.
A estrutura é particularmente interessante porque não representa simplesmente um “gonopódio” semelhante ao encontrado em poecilídeos. O próprio conceito de pseudogonopódio foi utilizado justamente para distinguir estruturas anatomicamente diferentes que desempenham funções relacionadas à reprodução.
Mais tarde, o pseudogonopódio tornou-se uma das características mais importantes para o reconhecimento e estudo do gênero Campellolebias.
Esse pequeno episódio revela algo importante sobre Gilberto: ele não era apenas alguém que coletava peixes para pesquisadores. Ele observava os animais vivos e era capaz de perceber características anatômicas e comportamentais que mereciam investigação científica.
A anatomia e a evolução dessa estrutura ainda rendem uma discussão fascinante, que merece ser tratada separadamente em uma matéria própria.
Um elo entre a killifilia brasileira e o exterior
A história de Gilberto ganha outra dimensão quando analisamos sua participação na comunidade internacional de killifilia.
Relatos históricos de aquaristas norte-americanos mostram que ele mantinha correspondência com criadores estrangeiros e participava da circulação de peixes brasileiros. Um desses relatos registra a coleta, por Gilberto, de Cynolebias antenori (atual Hypsolebias antenori) e a posterior importação dos peixes para os Estados Unidos, onde exemplares foram distribuídos entre integrantes da American Killifish Association — AKA.
Uma publicação histórica da própria comunidade de killifilia brasileira também relata que, no início dos anos 1980, interessados em Cynolebias receberam da AKA a indicação de Gilberto Campello Brasil como um aquarista brasileiro que já coletava killifishes em diferentes regiões do país.
Embora esse tipo de relato deva ser tratado como documentação histórica secundária, ele ajuda a mostrar que Gilberto já era conhecido entre os aquaristas especializados de fora do Brasil.
Ele não estava apenas “colaborando” ocasionalmente com cientistas.
Estava inserido em uma rede internacional de aquaristas, coletores e pesquisadores que trocavam peixes, ovos, informações e experiências.
O Brasil percorrido em busca de pequenos peixes
As expedições de Gilberto levaram-no a diferentes regiões brasileiras, com destaque para áreas do Nordeste e do Centro-Oeste, mas também para outras bacias hidrográficas.
Ele percorreu áreas relacionadas às bacias dos rios São Francisco, Tocantins, Mucuri, Pardo, Jequitinhonha e Cachoeira, entre outras.
Grande parte de suas viagens tinha uma característica marcante: a procura por ambientes temporários.
Para quem não conhece a biologia dos killifishes anuais, uma pequena poça no meio da paisagem pode parecer um lugar biologicamente irrelevante. Para um explorador como Gilberto, entretanto, aquela poça poderia esconder uma população inteira de um peixe que talvez ainda não tivesse sequer nome.
Um colecionador que também era descobridor
A produção taxonômica associada a Gilberto é impressionante.
É importante, contudo, fazer uma distinção. Nem todas as espécies relacionadas ao seu nome foram “descobertas” individualmente por ele no sentido estrito, e algumas tiveram sua classificação modificada posteriormente. Alguns gêneros foram divididos, outros reunidos, e várias espécies passaram por mudanças de combinação taxonômica.
Por isso, seu legado deve ser entendido de maneira mais ampla: Gilberto esteve na origem de numerosas populações e materiais que posteriormente se transformaram em espécies reconhecidas pela ciência.
Entre os táxons historicamente associados a seu trabalho estão nomes como:
- Campellolebias brucei
- Campellolebias chrysolineatus
- Campellolebias dorsimaculatus
- Cynolebias griseus
- Simpsonichthys zonatus
- Hypsolebias flavicaudatus
- Cynolebias perforatus
- Hypsolebias magnificus
- Atlantirivulus nudiventris
- Cynolebias leptocephalus
- Hypsolebias fulminantis
- Hypsolebias alternatus
- Hypsolebias multiradiatus
- Hypsolebias stellatus
- Hypsolebias trilineatus
- Hypsolebias marginatus
- Hypsolebias radiosus
- Hypsolebias fasciatus
- Hypsolebias gibberatus
- Hypsolebias virgulatus
- Plesiolebias filamentosus
- Simpsonichthys punctulatus
- Melanorivulus planaltinus
- Spectrolebias inaequipinnatus
Vários desses nomes hoje aparecem em gêneros diferentes daqueles utilizados quando foram originalmente descritos.
Isso é especialmente relevante para quem conhece a antiga literatura de killifilia brasileira: espécies que os aquaristas mais antigos conheciam como Cynolebias ou Simpsonichthys podem hoje ser encontradas sob Hypsolebias, Spectrolebias, Melanorivulus ou outros gêneros.
Hypsolebias fulminantis: um dos peixes mais emblemáticos
Entre os peixes associados ao trabalho de Gilberto está Hypsolebias fulminantis, originalmente descrito como Cynolebias fulminantis.
A espécie está ligada à região de Guanambi, na Bahia, e foi descrita em 1993.
Seu nome específico, fulminantis, faz referência ao aspecto brilhante e “relampejante” da coloração do macho.
É um bom exemplo do tipo de peixe que Gilberto procurava: pequeno, extremamente colorido, associado a ambientes sazonais e restrito a uma determinada região geográfica.
A descoberta de Hypsolebias virgulatus e H. gibberatus
Em 2005, Gilberto esteve novamente na origem de descobertas importantes.
Hypsolebias virgulatus foi coletado em 26 de maio de 2005, na bacia do rio Paracatu, em Minas Gerais, e descrito posteriormente por Wilson Costa, em 2006.
Outro peixe, Hypsolebias gibberatus, foi coletado por Gilberto em 15 de abril de 2005, também na bacia do Paracatu, sendo descrito em 2006.
Esses episódios demonstram que seu trabalho de campo continuou ativo mesmo já no século XXI.
Quando uma espécie recebe seu nome
Uma das maiores homenagens que um naturalista pode receber é ter seu nome permanentemente associado à biodiversidade que ajudou a revelar.
Gilberto recebeu essa homenagem diversas vezes.
O gênero Campellolebias foi criado em sua homenagem.
Depois surgiu Cynolebias gilbertoi, cujo nome foi dedicado a ele em reconhecimento às suas expedições pelo Nordeste brasileiro e à descoberta de diversas espécies.
Mais tarde, Costa descreveu Hypsolebias gilbertobrasili, incorporando praticamente seu nome completo ao nome científico da espécie. O FishBase registra explicitamente essa homenagem.
Há ainda Kryptolebias campelloi, outro táxon cujo nome presta homenagem à sua atuação.
Assim, a memória de Gilberto não está apenas em livros ou fotografias.
Ela está gravada na nomenclatura zoológica.
O homem dos peixes também era o homem dos cactos
Existe outro aspecto pouco conhecido da história de Gilberto.
A partir de aproximadamente 1990, ele passou a dedicar grande atenção às Cactaceae, formando uma coleção particular que chegou a reunir centenas de plantas.
Quando desapareceu, sua residência no Recanto das Emas abrigava uma coleção estimada em aproximadamente 500 espécies ou exemplares de cactos, além de seus aquários, livros, fotografias e materiais relacionados às expedições.
Depois do desaparecimento, parte significativa desse material foi destinada ao Jardim Botânico de Brasília.
A instituição catalogou e incorporou sua coleção de plantas, que posteriormente passou a ser conhecida como Cactário Gilberto Brasil.
Os 35 aquários que sobreviveram ao desaparecimento
Um dos episódios mais impressionantes da história de Gilberto ocorreu depois que ele já havia desaparecido.
Em 2009, funcionários foram à sua residência para recolher o material deixado para trás.
Encontraram 35 aquários.
Os recipientes estavam abandonados, sem água, e praticamente tudo indicava que os peixes haviam morrido.
Apenas cinco peixes sobreviveram ao resgate e acabaram morrendo pouco depois.
Mas havia algo escondido no fundo dos aquários.
Quando o substrato seco recebeu água novamente, começaram a surgir pequenos peixes.
Os ovos dos killifishes haviam sobrevivido enterrados na lama.
Era exatamente o fenômeno que Gilberto estudava durante suas expedições: a vida permanecendo aparentemente ausente, mas apenas aguardando as condições adequadas para retornar.
Os técnicos encontraram também livros, fotografias, equipamentos e outros materiais científicos. Em muitos aquários, entretanto, faltavam etiquetas ou informações suficientes para que os peixes recém-eclodidos pudessem ser imediatamente identificados.
É provavelmente a imagem mais simbólica de toda a história de Gilberto Campello Brasil:
o homem havia desaparecido, os aquários estavam secos, mas seus peixes ainda estavam vivos — escondidos na forma de ovos.
O Espaço Gilberto Brasil em Brasília
O material deixado por Gilberto levou o Jardim Botânico de Brasília a pensar em uma forma institucional de preservar seu legado.
Documentos do JBB registram a intenção de criar uma coleção permanente de peixes anuais, utilizando parte do acervo associado a Gilberto para pesquisa, conservação e educação ambiental.
Em 2010, a TV Senado já apresentava ao público o Espaço Gilberto Brasil, relacionando o local tanto ao acervo de peixes quanto à coleção de cactos.
Entretanto, os documentos institucionais mostram que a parte dedicada aos peixes enfrentou limitações de infraestrutura e não chegou a consolidar-se da mesma maneira que a coleção botânica.
Com o passar dos anos, o legado de Gilberto permaneceu mais claramente preservado no setor de Cactaceae.
O Cactário Gilberto Brasil hoje
Atualmente, o Jardim Botânico de Brasília mantém o espaço como Cactário, originado justamente da coleção particular de Gilberto.
Segundo a página oficial do JBB, atualizada em 10 de agosto de 2026, a coleção possui cerca de 60 espécies e mais de 500 indivíduos. O acervo começou com a doação da coleção particular de Gilberto feita por sua família e posteriormente foi ampliado por multiplicação e intercâmbio com outras instituições botânicas.
Entre os gêneros presentes estão Astrophytum, Cereus, Cipocereus, Discocactus, Facheiroa, Mammillaria, Micranthocereus, Parodia, Pilosocereus e Uebelmannia.
O Cactário encontra-se atualmente na área de visitação do Jardim Botânico de Brasília.
Isso significa que uma parte importante da obra de Gilberto continua fisicamente viva e acessível ao público.
É uma homenagem particularmente apropriada para alguém que dedicou sua vida à observação da biodiversidade brasileira.
O desaparecimento de Gilberto
Em 7 de novembro de 2008, Gilberto deixou de comparecer ao trabalho.
Ele tinha 63 anos.
Morava sozinho no Recanto das Emas, no Distrito Federal, e trabalhava como assessor técnico do Ministério do Meio Ambiente.
Como não retornou ao trabalho nem respondeu às tentativas de contato, seu desaparecimento foi comunicado às autoridades.
A investigação passou pela 27ª Delegacia de Polícia, no Recanto das Emas, e pela Divisão de Repressão ao Sequestro da Polícia Civil. Segundo a imprensa da época, o caso corria sob segredo de Justiça.
O desaparecimento era especialmente preocupante porque Gilberto já havia sido vítima de crimes.
Segundo o Correio Braziliense, nos cinco anos anteriores ele havia tido três veículos roubados e, em julho de 2008, havia sido agredido durante um assalto e deixado na rua.
Isso levou à especulação de que seu desaparecimento poderia estar relacionado à violência que já havia sofrido.
Entretanto, é importante não ultrapassar aquilo que as fontes permitem afirmar.
Não existe, nas fontes documentais localizadas, uma explicação conclusiva e publicamente estabelecida sobre o que aconteceu com Gilberto.
Relatos posteriores mencionam boatos sobre a possível localização de seu corpo, mas esses relatos não apresentaram comprovação documental suficiente. Uma publicação especializada em aquarismo que recuperou a história anos depois também registrou que não havia surgido evidência conclusiva sobre seu destino.
Hoje, as fontes taxonômicas e biográficas costumam tratá-lo como morto, mas seu desaparecimento permanece um episódio sem solução pública plenamente esclarecida.
O mistério e os rumores
Como acontece em muitos desaparecimentos sem solução, a história de Gilberto passou a gerar relatos, hipóteses e rumores.
Alguns desses relatos pertencem à memória oral da própria comunidade de aquaristas. Outros aparecem em publicações secundárias.
Eles incluem especulações sobre assaltos, possíveis conflitos e diferentes versões para seu desaparecimento.
Nenhuma dessas versões, porém, deve ser apresentada como fato sem documentação policial ou outra fonte primária que a sustente.
Para a história da killifilia, isso é particularmente importante.
A vida de Gilberto já é extraordinária por aquilo que sabemos.
Não há necessidade de transformar conjecturas em certezas.
Um legado que sobreviveu ao homem
A vida de Gilberto Campello Brasil reúne elementos incomuns.
Ele foi químico.
Foi servidor público.
Foi colecionador de cactos.
Foi aquarista.
Foi explorador.
Foi coletor científico.
Foi colaborador de ictiólogos.
E tornou-se, de certa forma, um descobridor de espécies.
Mais do que isso: ele foi uma ponte entre a killifilia e a ciência.
Antes da internet, da comunicação instantânea e das grandes bases de dados digitais, uma nova população de killifish dependia de uma cadeia humana para ser conhecida.
Era necessário encontrar o peixe.
Coletá-lo.
Transportá-lo.
Mantê-lo vivo.
Observar seu comportamento.
Enviar exemplares.
Conversar com pesquisadores.
Compará-lo com espécies conhecidas.
Publicar sua descrição.
E, finalmente, fazer com que o conhecimento não desaparecesse junto com a poça onde o peixe havia vivido.
Gilberto percorreu repetidamente esse caminho.
O homem que descobria peixes em lugares que pareciam não existir
Talvez seja essa a melhor forma de compreender sua importância.
Para a maioria das pessoas, uma pequena poça temporária no interior do Brasil poderia parecer apenas água barrenta acumulada após uma chuva.
Para Gilberto, ela poderia esconder uma espécie inteira.
Uma espécie que viveria apenas algumas semanas.
Uma espécie cujo habitat poderia desaparecer antes mesmo que alguém percebesse sua existência.
Uma espécie que talvez nunca mais pudesse ser encontrada.
Sua contribuição foi mostrar que esses pequenos ambientes mereciam atenção científica.
E que os pequenos peixes que os ocupavam não eram insignificantes.
Um nome que continua vivo
Hoje, quem estuda os rivulídeos brasileiros encontra repetidamente o legado de Gilberto Campello Brasil.
Encontra seu nome em Campellolebias.
Encontra-o em Cynolebias gilbertoi.
Encontra-o em Hypsolebias gilbertobrasili.
Encontra-o em Kryptolebias campelloi.
Encontra-o nas coleções científicas.
Encontra-o nos registros de localidades.
Encontra-o na história da American Killifish Association.
Encontra-o nos relatos de expedições.
E encontra parte de sua coleção vegetal no Cactário Gilberto Brasil, no Jardim Botânico de Brasília.
Talvez exista algo de particularmente apropriado nisso.
Gilberto dedicou parte de sua vida aos peixes anuais — animais cuja existência parece desaparecer quando a água seca, mas cuja continuidade permanece protegida dentro de ovos microscópicos.
Seu próprio destino, infelizmente, acabou cercado por uma espécie de vazio semelhante.
O homem desapareceu.
Mas suas descobertas permaneceram.
Seus peixes continuaram sendo estudados.
Seu nome entrou para a taxonomia.
Sua coleção de plantas continuou crescendo.
E, décadas depois, ainda podemos encontrar vestígios concretos de sua passagem pelo Brasil.
Gilberto Campello Brasil desapareceu em 2008. Sua obra, entretanto, continua emergindo.
Como os peixes que ele tanto procurou, ela estava escondida.
E ainda está viva.