
Uma joia do "Grupo Tocantins". Diferente de seus primos que vivem em pleno sol, a localidade tipo desta espécie sugere preferência por áreas de mata de galeria (sombra), o que explica suas cores vibrantes e contrastadas.

Brasil
Hypsolebias marginatus
Descrito originalmente como Simpsonichthys marginatus. Transferido para o gênero Hypsolebias durante a revisão de Costa (2006/2010), que separou os peixes do clado "antenori/flammeus" dos verdadeiros Simpsonichthys (grupo do boitonei).
Do latim marginatus (marginado, com borda), em referência à distinta faixa preta distal nas nadadeiras dorsal e anal do macho.
Informações sobre criação de killifishes Ex situ. Histórico da espécie em cativeiro, criação no Brasil e no Mundo, dicas de manejo, manutenção e procriação. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
Anual (Ovos de diapausa obrigatória).
Média (Requer controle de incubação).
Médio. Machos entre 4.0 a 5.0 cm
Pacífico em trios. Machos exibem "filamentos" nas nadadeiras para impressionar.
Carnívoro de micro-presas. Alimentos vivos são essenciais para manter a cor e a fecundidade.
20 litros são suficientes para um trio, dado o tamanho compacto.
Substrato escuro ajuda a realçar as cores. Troncos e folhas secas de amendoeira ou carvalho ajudam a acidificar a água e criar refúgios.
Tropical (24°C - 28°C). Toleram por algum tempo temperaturas maiores até 32ºC.
Típica de poça de Cerrado. pH ácido (6.0 - 6.8), mole.
Turfa moída ou pós de casca de coco fervida.
O Hypsolebias marginatus é um peixe anual bastante simples de manter e criar desde que respeitados os parâmetros naturais da espécie.
Muito comum nas criações estrangeiras, principalmente na Europa e EUA, no Brasil também era muito comum até o final dos anos 2010 quando houveram proibições nacionais. Importante frisar que as criações nacionais eram oriundas de turfas adquiridas no exterior.
É tido como dificuldade Média de criação em nossa ficha apenas pelo fato de ser um peixe que exige secagem, acompanhamento e hidratação de substrato de desova (turfa). Resolvido esta dificuldade, qualquer criador poderá mantê-lo por muito tempo sem problemas.
Peixe de pequeno porte não é agressivo embora tenha intimidações constantes por território, não costumam chegar a se ferirem e em pouco tempo um dos machos assume como alpha e é justamente este que terá o maior tamanho, os maiores filamentos e cores mais vivas. Não costumam incomodar fêmeas.
Sua dieta deve ser prioritariamente feita com alimento vivo ou congelado. Dificilmente aceita ração industrializada.
O aquário não necessita ter muitos litros e criadores experientes podem mantê-los em aquários de 12 litros sem problemas não sendo aconselhável para criadores novatos.
Plantas de superfície ajudam a deixa-los mais mais a vontade para natação livre e o fundo do aquário é interessante ter um pouco de pó de coco junto com alguns pequenos galhos e folhas como a de amendoeira da índia para refúgio, anti-fúngico, e ambientação.
Toleram temperaturas mais altas durante certo tempo, mas é aconselhável manter entre 24° e 28ºC. O pH aconselhável é de ácido para levemente alcalino com água mole.
Diferente dos killifishes que desovam em plantas, o H. marginatus é um mergulhador de substrato.
A Dinâmica: O macho, com suas nadadeiras dorsal e anal estendidas exibindo a margem preta e azul, conduz a fêmea até o local escolhido. O ápice do comportamento ocorre quando ambos pressionam o focinho contra o substrato e, em um movimento vigoroso, mergulham completamente, desaparecendo da vista do criador. Lá dentro, protegidos pela turfa, ocorre a fertilização.
O Ninho (Setup de Desova): Esqueça o fundo nu. Para o marginatus, você deve fornecer um pote de boca larga (tipo um pote de sorvete ou vidro de conserva) com uma camada generosa de 6 a 8 cm de turfa (pó de coco ou musgo Sphagnum fervido e moído).
Dica: A turfa deve estar bem limpa para evitar fungos. Se a camada for rasa, o peixe pode se machucar ao tentar mergulhar contra o vidro do fundo.
A coleta da turfa deve ser feita de forma semanal ou quinzenal.
Ovos grandes para o porte do peixe (1.5 mm).
Processamento: Retire o pote, despeje a turfa em uma rede fina e esprema o excesso de água até que ela fique com a consistência de um "bolo de tabaco" (úmida, mas sem pingar).
Armazenamento: Coloque a turfa em sacos plásticos herméticos, devidamente identificados com a espécie (H. marginatus), localidade (Barro Alto) e a data da coleta.
Aqui é onde a paciência do criador é testada. Os ovos são duros e extremamente resistentes, preparados para os veranicos severos do Cerrado.
Tempo Médio: De 12 a 16 semanas (3 a 4 meses).
Temperatura: O ideal é manter em torno de 25°C. Se a temperatura baixar muito, o desenvolvimento para (diapausa profunda); se subir demais, o embrião pode consumir suas reservas vitelinas antes do tempo.
Monitoramento: Após o terceiro mês, use uma lanterna, lupa ou microscópio para examinar os ovos. Você saberá que é hora da eclosão quando vir claramente os olhos do embrião (o "anel negro") formados e o coração batendo.
Para simular as chuvas que lavam o Planalto Central, usamos o choque térmico e osmótico.
A "Receita": Utilize água limpa e saturada de oxigênio em uma temperatura propositalmente mais baixa que a de armazenamento (18-20°C). Esse diferencial térmico avisa ao embrião: "A chuva chegou e a poça está enchendo!".
O Resultado: Em poucas horas (ou até minutos), os alevinos rompem o córion e emergem. Se alguns ovos não eclodirem em 1 dia, seque a turfa novamente por mais 2 ou 3 semanas.
Os alevinos de H. marginatus já nascem com um tamanho razoável comparado a outros Hypsolebias menores, mas ainda exigem atenção.
Primeira Comida: Embora consigam encarar náuplios de artêmia recém-eclodidos desde o primeiro dia, oferecer vermes do vinagre ou infusórios nas primeiras 48 horas garante uma taxa de sobrevivência maior para os exemplares mais lentos.
Crescimento: Eles têm um metabolismo acelerado. Com trocas parciais de água frequentes e alimentação generosa, em 5 semanas você já começará a ver os primeiros sinais de dimorfismo sexual (as fêmeas com suas manchas e os machos começando a escurecer as nadadeiras).
Populações com Código de Coleta (Rastreabilidade Alta)
Estas populações possuem dados precisos de local, data e coletor. Devem ser mantidas estritamente puras.
Legenda do Mapa: Ponto exato da localidade tipo (Rio dos Patos). Observe a fragmentação da cobertura vegetal original.
Como é uma espécie nativa e endêmica, as populações circulantes no hobby são preciosas.
| Código | Localidade | Estado | Notas |
| Barro Alto | Barro Alto | GO | A localidade tipo. População mais comum. |
| NP 03/07 | Barro Alto | GO | Coleta feita por Nielsen & Pillet (2003). |
| H. sp. "Uruaçu" | Uruaçu | GO | Algumas populações próximas podem ter sido distribuídas com este nome antes da confirmação taxonômica. |
O H. marginatus ilustra a esquizofrenia da conservação no Brasil.
Resultado: A espécie desaparece da natureza pelo trator e desaparece do aquarismo pelo medo da fiscalização, restando apenas a extinção silenciosa.
Os marcadores não significam a localização exata da população desta espécie. A intenção é apenas mostrar um aspecto geral da distribuição geográfica.
Informações científicas sobre a espécie, dados sobre morfometria, características científicas diferenciadas e história da espécie. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
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A diagnose é o "RG" do peixe. O que o diferencia de seus primos próximos, como o H. flammeus ou o H. lulai?
Padronagem Cromática dos Machos: O corpo apresenta de 6 a 8 barras verticais azul-claras sobre um fundo alaranjado. Repare que essas barras diminuem de espessura à medida que avançam para a parte posterior do corpo (caudal).
As "Margens" que dão Nome à Espécie: O epíteto marginatus vem do latim margo (borda). A característica diagnóstica mais forte é a presença de uma margem preta nas nadadeiras Dorsal e Anal, sublinhada por uma submargem azul-clara.
Nadadeiras Impares: Tanto a dorsal quanto a anal possuem raios filamentosos pretos e pontos azuis sobre o fundo laranja.
Fêmeas: Como é comum nos cinolebiíneos, são mais discretas, mas apresentam um padrão "fasciado" (com barras) e manchas pretas permanentes nos flancos.
Os números contam a história da evolução e da adaptação ao meio. Aqui estão os dados médios que definem a estrutura física do H. marginatus:
| Parâmetro | Média / Valor | Observação Técnica |
| Tamanho Máximo (Macho) | 4.0 cm SL | SL = Comprimento Padrão (sem a cauda) |
| Raios da Nadadeira Dorsal | 20.8 | Elevado número de raios, típico do grupo |
| Raios da Nadadeira Anal | 22.0 | Nadadeira anal levemente maior que a dorsal |
| Desvio D/A | -3.0 | A origem da dorsal está ligeiramente atrás da anal |
| Escamas na Linha Lateral | 24.4 | Escalação padrão para o gênero |
| Profundidade do Corpo | Muito profunda | Corpo alto, típico de espécies de "mergulho" |
Nota do site: O desvio D/A (distância entre a origem da nadadeira Dorsal e Anal) é fundamental. No H. marginatus, as nadadeiras são quase sobrepostas (D/A entre -1 e +1 em alguns casos, mas com média tendendo a -3.0), o que reflete sua hidrodinâmica para a vida em águas paradas e rasas (cerca de 30-40 cm de profundidade).
Dizer que todos os peixes em cativeiro hoje vêm de um único casal é tecnicamente um exagero poético, mas geneticamente a situação não está longe disso.
A verdade é que a linhagem que circulou no hobby por décadas (e que ainda persiste em alguns aquários de especialistas na Europa e no Brasil) provém de uma amostragem extremamente reduzida feita na expedição de 1996. Naquela ocasião, como vimos, a coleta foi em Barro Alto. O que poucos sabem é que, embora tenham sido coletados vários exemplares para fixação (museu), o número de peixes que saíram vivos para estabelecer linhagens de aquário foi ínfimo.
A Coleta Difícil: Em fevereiro de 1996, a poça em Barro Alto estava com pouca densidade de peixes. Gilberto Brasil e Wilson Costa conseguiram coletar a série tipo, mas para o aquarismo, apenas um punhado de espécimes sobreviveu à logística de transporte da época.
O Estabelecimento da Linhagem: Relatos de killifilistas veteranos sugerem que a população mantida em cativeiro por muito tempo na Europa (onde o hobby é fortíssimo) derivou de pouquíssimos indivíduos, talvez um ou dois trios iniciais.
O Isolamento de Barro Alto: Diferente de outras espécies que têm várias populações conhecidas (como o H. flammeus), o marginatus ficou "preso" àquela localidade específica. Com o avanço da mineração de níquel e da agricultura em Barro Alto, muitas poças foram destruídas.
Quando uma linhagem inteira ex situ vem de pouquíssimos pais, ocorre o que chamamos de Efeito Fundador seguido de Endogamia (inbreeding).
Perda de Vigor: Ao cruzar "irmãos com irmãos" por 20 ou 30 anos, a variabilidade genética despenca. Isso pode resultar em peixes menores, menos férteis e mais suscetíveis a doenças.
O "Puro-sangue" de Barro Alto: Para o aquarista, manter essa linhagem viva é uma honra, mas para a ciência, é um sinal de alerta. Se a população selvagem desaparecer (e há indícios de que o habitat original foi severamente alterado), esses peixes de aquário são as únicas "cópias" do DNA da espécie, por mais empobrecidas que sejam.
E aqui eu não me contenho. O H. marginatus está na lista de espécies ameaçadas. O que o governo fez? Criou leis que dificultam o transporte e a manutenção desses peixes por criadores sérios.
Enquanto o IBAMA e outros órgãos gastam energia perseguindo criadores que reproduzem esses peixes em aquários com todo o carinho e técnica, as máquinas de terraplanagem em Barro Alto continuam operando. É a "burocracia do extermínio": é proibido ter o peixe no aquário para salvá-lo, mas é permitido destruir a poça para plantar soja ou extrair minério se o "estudo de impacto ambiental" (muitas vezes mal feito) der o OK.
O resultado? O "único casal" ou "poucos casais" originais tornaram-se os embaixadores de uma espécie fantasma. Se não fossem esses criadores que mantiveram a linhagem viva "na clandestinidade" ou sob regras obscuras, talvez nem tivéssemos mais o marginatus para estudar a osteologia. Esta espécie está sendo mantida basicamente por criadores estrangeiros.
Felizmente, novas expedições nos últimos anos (como as que levaram à reclassificação por Ramos e Nielsen em 2023) tentaram localizar novas populações. A genética de populações selvagens ainda é um mistério, mas o estoque no aquarismo continua sendo um "gargalo" histórico.
Na biologia, a tipologia refere-se ao material físico (os exemplares) que serviu de base para a descrição da espécie. São os "padrões de ouro" depositados em museus.
Holótipo: Um macho de 23.1 mm de comprimento padrão (SL), registrado como MNRJ 12440 (Museu Nacional do Rio de Janeiro).
Série de Parátipos: Inclui fêmeas e outros machos depositados no MZUSP (São Paulo) e na UFRJ. Esses exemplares são cruciais para entender a variação da espécie.
Localidade-Tipo: Barro Alto, Estado de Goiás, Brasil. Especificamente em poças próximas ao Rio dos Patos, um tributário do Rio Maranhão (bacia do Rio Tocantins).
Descobridores: Wilson Costa, Gilberto Brasil, M.P.I.F. Landin e C.L.R. Moreira, em uma expedição no dia 12 de fevereiro de 1996.
Como mencionado anteriormente, marginatus vem do latim e refere-se à margem. Foi uma escolha cirúrgica dos descritores para destacar a borda escura nas nadadeiras, uma característica que salta aos olhos de qualquer criador experiente.
A história do H. marginatus é marcada por uma instabilidade sistemática que deixa muitos aquaristas confusos. Vamos colocar ordem na casa:
1996 (A Descoberta): Descrito originalmente como Simpsonichthys marginatus. Naquela época, o gênero Simpsonichthys era um grande "guarda-chuva" que abrigava quase todos os anuais de corpo alto do Brasil central.
2003 - 2006 (O Dilema das Afinidades): Wilson Costa, em seus estudos morfológicos e filogenéticos, começou a perceber que o marginatus era uma peça intrigante no quebra-cabeça. Ora era colocado próximo ao H. chacoensis, ora era visto como o membro mais primitivo do grupo de superspécies boitonei.
2007 (A Mudança para Hypsolebias): Com a revisão profunda dos Simpsonichthys, a espécie foi alocada no subgênero Hypsolebias, que mais tarde seria elevado ao status de gênero pleno.
2023 (A Classificação Atual): Trabalhos recentes de Ramos, Nielsen e outros confirmaram sua posição no grupo de espécies flammeus, sendo parente próximo de H. lulai e H. flammeus.
A trajetória dessa espécie na ciência não foi linear. Veja os pontos fundamentais:
A Descrição Original (1996): Trouxe fotos coloridas (raras na época para descrições), dados de osteologia e, o mais importante, dados ecológicos. Foi ali que soubemos que ele vivia em poças rasas (40 cm), de água acastanhada mas não turva, sobre um fundo de folhas mortas e mulm.
A "Redescoberta" no Hobby: Embora tenha sido descrito em 96, ele sempre foi uma joia rara no aquarismo internacional e nacional. Sua distribuição restrita a Barro Alto o torna vulnerável.
O Status de Conservação: Hoje, é considerado criticamente em perigo. E aqui vai minha crítica ácida: as autoridades ambientais muitas vezes colocam essas espécies em listas de proibição de manutenção, o que é um contrassenso. Se o habitat em Barro Alto for drenado para agricultura, a espécie desaparece. O aquarista responsável é o "seguro de vida" desse peixe através da reprodução ex situ.
Imagine o planalto goiano. O biótopo do H. marginatus é o Cerrado derivado (savana). Durante a estação seca, as poças simplesmente desaparecem, e a vida da espécie fica guardada na forma de ovos resistentes sob 10 cm de argila e matéria orgânica. Quando as chuvas de verão chegam, entre novembro e fevereiro, ocorre a mágica: os ovos eclodem e, em apenas 2 meses, os peixes já atingem a maturidade sexual para garantir a próxima geração.
Material sobre características dos habitats e biótopos desta espécie, bem como riscos específicos e iniciativas de preservação. Utilize as abas abaixo para navegar entre os assuntos.
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O H. marginatus não é um andarilho. Ele é um especialista.
Bacia Hidrográfica: Está confinado à bacia do Rio Tocantins, mais especificamente no sistema do Rio Maranhão.
Micro-região: O "ponto zero" é o município de Barro Alto (GO), próximo ao Rio dos Patos.
Limites Biogeográficos: Ele é cercado por "primos" de peso. A leste temos o H. brunoi, ao norte o H. multiradiatus e ao sudeste o H. fasciatus. O marginatus ocupa um nicho específico nesse quebra-cabeça do Planalto Central.
Estamos falando de uma região de Planalto, com altitudes que variam entre 500 e 800 metros.
Topografia: O terreno não é plano como um campo de futebol; ele é suavemente ondulado. O marginatus se instala nas depressões marginais das várzeas.
O Ciclo das Águas: No auge da estação chuvosa, o lençol freático sobe e as chuvas acumulam-se nessas baixadas. O relevo permite que a água fique estagnada, criando as poças temporárias que são o berço da espécie.
O biótopo do H. marginatus é o Cerrado Sensu Stricto evoluindo para áreas de Cerrado derivado (savana) e matas de galeria.
Natureza Estagnada: Esqueça correnteza. Eles vivem em águas paradas.
Profundidade: No auge, as poças têm cerca de 40 cm, mas a espécie prefere ficar na camada inferior, rente ao fundo.
Substrato: Aqui está o segredo. O fundo é composto por uma camada espessa de argila, coberta por mulm (matéria orgânica) e folhas mortas das árvores ao redor. A água é frequentemente descrita como "cor de chá" (devido aos taninos das folhas), com pH tendendo de ácido a levemente alcalino (graças à base mineral da região).
Temperatura: Um desafio térmico! A água pode variar de 24°C (manhã/chuva) a picos de 34°C sob o sol forte de Goiás.
Ao contrário de outros killies que vivem em campos abertos, o H. marginatus é frequentemente encontrado em poças com algum sombreamento de vegetação marginal ou de mata de galeria.
Vegetação Aquática: Frequentemente ausente. O peixe não usa plantas para desovar (ele mergulha no barro). O que protege os alevinos é o emaranhado de galhos e folhas caídas.
Vegetação Marginal: Composta por gramíneas, arbustos típicos do Cerrado e árvores de pequeno porte que fornecem a serapilheira (o "carpet" de folhas no fundo).
A "Sombra" Vital: Esse sombreamento parcial ajuda a evitar que a poça evapore rápido demais antes que os peixes completem o ciclo reprodutivo.
O H. marginatus é um peixe de ciclo anual. Isso significa que ele é um mestre da urgência biológica.
Estratégia Reprodutiva: Diferente de peixes de rios perenes, ele não guarda energia. Toda a sua ecologia é voltada para o mergulho no substrato. O casal se enterra na mistura de argila e mulm para depositar os ovos.
Nicho Ecológico: Ele ocupa a camada de fundo. Seu corpo alto e nadadeiras desenvolvidas sugerem um comportamento de exibição territorial intenso (agonístico) entre machos, comum em poças onde o espaço diminui conforme a seca avança.
Alimentação: Como um micro-predador voraz, sua dieta in situ baseia-se em larvas de insetos (como quironomídeos), pequenos crustáceos e outros micro-organismos que proliferam na matéria orgânica em decomposição.
Aqui está um ponto curioso e isolado: os registros originais de Costa e Brasil (1996) e observações subsequentes indicam que o H. marginatus vive, muitas vezes, em isolamento taxonômico.
Ausência de outros Killifishes: Em muitos de seus biótopos específicos em Barro Alto, não foram registrados outros Cyprinodontiformes simpátricos. Isso significa que ele reina "sozinho" naquelas poças temporárias específicas.
Fauna Acompanhante: Em poças que mantêm conexão com pequenos riachos durante o auge das cheias, pode haver a presença temporária de pequenos caracídeos (como Astyanax spp. ou Hyphessobrycon spp.), mas estes geralmente não sobrevivem quando a poça se isola e o nível de oxigênio cai.
Simpatria Geográfica: Embora não habitem a mesma poça, ele divide a região com outros gigantes da killifilia, como o H. multiradiatus (ao norte) e o H. brunoi (a leste). O isolamento entre essas poças funciona como uma barreira genética que mantém a espécie marginatus única.
O Hypsolebias marginatus está classificado como Criticamente em Perigo (CR) ou Em Perigo (EN) em diversas listas, dependendo da atualização local. A realidade é que ele é um dos killifishes mais ameaçados do Tocantins.
Mineração: Barro Alto é um polo mundial de extração de níquel. A atividade mineradora altera o lençol freático, drena áreas de várzea e pode contaminar o solo onde os ovos "dormem" durante a seca.
Agronegócio: A conversão do Cerrado em pastagens e plantações de soja destrói as matas de galeria. Sem a vegetação, o ciclo hídrico da poça muda, a água esquenta demais e a evaporação ocorre antes dos peixes maturarem.
Uso de Agrotóxicos: Os defensivos agrícolas usados nas lavouras vizinhas escorrem para as depressões do terreno, justamente onde estão as poças. Os killifishes são extremamente sensíveis a esses químicos.
As autoridades ambientais brasileiras adoram colocar o H. marginatus em listas de proibição, mas raramente criam uma Unidade de Conservação específica para proteger suas poças. É a hipocrisia estatal: proíbem o aquarista de manter e reproduzir a espécie sob penas severas, mas emitem licenças para grandes empreendimentos que aterram o biótopo inteiro. Para o governo, o peixe só é "protegido" enquanto está morrendo no campo; se estiver vivo e reproduzindo num aquário, ele é tratado como "produto de tráfico".