Família: Nothobranchiidae Garman, 1895

Entre os killifishes africanos, poucas famílias possuem tanta importância para a aquariofilia quanto Nothobranchiidae Garman, 1895. É nela que encontramos alguns dos gêneros mais conhecidos entre os criadores, como Aphyosemion, Fundulopanchax, Epiplatys, Callopanchax e, naturalmente, Nothobranchius.

À primeira vista, pode parecer estranho reunir em uma mesma família peixes tão diferentes. Um pequeno Epiplatys associado à superfície de um riacho florestal parece ter pouco em comum com um Nothobranchius que completa praticamente todo seu ciclo de vida em uma poça temporária de savana.

Entretanto, a taxonomia moderna procura representar principalmente relações de ancestralidade, e não apenas semelhanças externas ou estratégias reprodutivas.

Os Nothobranchiidae constituem uma importante radiação africana dos Aplocheiloidei, e sua história evolutiva produziu uma extraordinária variedade de formas, cores, comportamentos e estratégias de sobrevivência.


Classificação

De maneira simplificada:

Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Actinopterygii
Ordem: Cyprinodontiformes
Subordem: Aplocheiloidei
Família: Nothobranchiidae Garman, 1895

O grupo está intimamente relacionado aos Aplocheilidae, enquanto os Rivulidae representam a grande linhagem neotropical dos Aplocheiloidei.

Estudos filogenômicos modernos sustentam uma relação particularmente próxima entre os Nothobranchiidae continentais africanos e os Aplocheilidae indo-malgaxes. Uma análise baseada em milhares de sequências codificadoras estimou que essas duas linhagens se separaram há aproximadamente 53 milhões de anos, embora datas obtidas por relógios moleculares devam sempre ser entendidas como estimativas dependentes dos métodos e calibrações utilizados.


Samuel Garman e a origem de Nothobranchiidae

O nome da família remonta ao ictiólogo norte-americano Samuel Walton Garman, uma das figuras importantes da zoologia norte-americana do final do século XIX.

Em 1895, Garman publicou a extensa monografia The Cyprinodonts, nos Memoirs of the Museum of Comparative Zoology da Universidade Harvard.

Nesse trabalho, estabeleceu Nothobranchiinae, então em nível de subfamília, tendo como gênero nominal Nothobranchius Peters, 1868. Esse nome constitui a base nomenclatural de Nothobranchiidae Garman, 1895, atualmente utilizado em nível familiar em diversas classificações.

Portanto:

Família: Nothobranchiidae
Autor: Samuel Garman
Ano: 1895
Nome originalmente empregado: Nothobranchiinae
Gênero-tipo: Nothobranchius Peters, 1868

Essa situação é perfeitamente normal na nomenclatura zoológica. Nomes do chamado grupo-família mantêm autoria e data mesmo quando posteriormente passam de subfamília para família ou para outro nível correspondente.


Por que se chama Nothobranchiidae?

O nome deriva diretamente do gênero Nothobranchius.

O gênero foi estabelecido pelo naturalista alemão Wilhelm Peters em 1868.

A formação de Nothobranchiidae segue as regras da nomenclatura zoológica para nomes de famílias:

Nothobranchius → Nothobranchiidae

Portanto, Nothobranchius não é apenas um dos gêneros da família: é o gênero que fornece o nome ao grupo.

Isso, entretanto, não significa que todos os Nothobranchiidae sejam biologicamente semelhantes aos Nothobranchius atuais.


Uma família essencialmente africana

Nothobranchiidae representa uma grande radiação de killifishes da África continental.

Sua diversidade está distribuída principalmente pela África subsaariana, desde florestas úmidas da África Ocidental e Central até savanas, planícies de inundação e sistemas temporários da África Oriental.

Essa distribuição acompanha uma enorme variedade de ambientes:

riachos florestais;

pequenos córregos;

brejos;

áreas marginais de rios;

pântanos;

florestas alagadas;

savanas sazonalmente inundadas;

depressões temporárias;

e poças que podem desaparecer completamente durante a estação seca.

Essa diversidade ambiental ajuda a explicar por que a família desenvolveu tantas estratégias ecológicas diferentes.


Oeste e leste: uma separação evolutiva antiga

Uma das características mais interessantes da história evolutiva dos Nothobranchiidae é a profunda separação entre suas linhagens africanas ocidentais e orientais.

Análises genômicas estimaram que essa divergência ocorreu aproximadamente 38,6 milhões de anos atrás, com ampla margem de incerteza estatística.

Ao longo de milhões de anos, mudanças climáticas, reorganizações de drenagens, expansão e retração das florestas, formação de savanas e transformações geológicas progressivamente isolaram populações.

O resultado foi uma extraordinária diversificação.

Na África Ocidental e Central surgiram grandes radiações de formas tradicionalmente associadas a Aphyosemion, Fundulopanchax, Epiplatys, Scriptaphyosemion, Callopanchax e grupos relacionados.

Na África Oriental, outra história evolutiva produziu principalmente a diversificação dos extraordinários killifishes sazonais associados a Nothobranchius e seus parentes.

Não se trata simplesmente de uma divisão geográfica moderna. É o reflexo de uma história evolutiva extremamente antiga.


O que caracteriza um Nothobranchiidae?

Não existe uma característica externa simples que permita ao aquarista olhar para qualquer espécie e imediatamente reconhecer todos os membros da família.

Essa dificuldade ocorre porque Nothobranchiidae inclui linhagens muito antigas e morfologicamente diversificadas.

Sua definição moderna depende de um conjunto de características anatômicas, osteológicas e moleculares.

Entre os elementos estudados pelos sistematas estão:

a estrutura do crânio;

mandíbulas;

arcos branquiais;

ossos da cintura pélvica;

organização das nadadeiras;

sistema látero-sensorial;

neuromastos cefálicos;

dentição;

estrutura das vértebras;

escamas;

morfologia do aparelho branquial;

e diferentes caracteres moleculares.

É justamente a combinação dessas informações que permite reconstruir as relações evolutivas entre os gêneros.

Para o criador, portanto, é importante compreender que a família não é definida apenas pela aparência ou pelo tipo de reprodução.


Não existe um “formato Nothobranchiidae”

Comparemos alguns exemplos conhecidos:

Aphyosemion australe

possui corpo relativamente alongado, grandes nadadeiras coloridas e está associado principalmente a pequenos ambientes permanentes ou semipermanentes da África Central.

Epiplatys annulatus

é pequeno, delgado e fortemente especializado na utilização da região superficial da água.

Fundulopanchax gardneri

possui corpo mais robusto, forte dimorfismo sexual e estratégias embrionárias que não se encaixam perfeitamente na simples oposição “anual versus não anual”.

Nothobranchius rachovii

vive naturalmente em ambientes sazonais que secam completamente, sobrevivendo à estação seca exclusivamente através dos ovos enterrados no substrato.

Todos pertencem ao mesmo grande ramo africano.

A diferença entre eles demonstra o quanto uma linhagem evolutiva pode se diversificar ao longo do tempo.


Nothobranchiidae não significa “killifish anual”

Este talvez seja o ponto mais importante para o criador.

É comum associar Nothobranchiidae aos killifishes anuais porque Nothobranchius é um dos gêneros mais famosos da família.

Porém:

Nothobranchiidae não é sinônimo de killifish anual.

A família inclui espécies com diferentes estratégias de vida.

Existem espécies estritamente associadas a ambientes temporários.

Existem espécies habitantes de ambientes permanentes.

E existem situações intermediárias, nas quais determinadas linhagens apresentam características embrionárias ou ecológicas que não podem ser encaixadas facilmente em uma divisão rígida entre “anual” e “não anual”.

Estudos recentes, inclusive, demonstram que a biologia embrionária pode ser mais complexa do que as classificações tradicionais utilizadas pelos criadores sugeriam. Em Fundulopanchax gardneri, por exemplo, foram documentadas fases de depressão do desenvolvimento embrionário que mostram como essa transição evolutiva pode ser biologicamente mais gradual do que uma simples dicotomia.


A anualidade surgiu mais de uma vez

A história torna-se ainda mais interessante quando examinamos a evolução do ciclo anual.

Durante muito tempo seria tentador imaginar que um ancestral anual teria simplesmente transmitido essa característica aos seus descendentes.

As análises filogenéticas indicam uma situação diferente.

Um estudo combinando caracteres morfológicos e dados moleculares mostrou que, entre os aplocheiloides africanos estudados, o ciclo anual aparentemente surgiu independentemente na linhagem de Callopanchax e novamente na linhagem que envolve Fundulopanchax e Nothobranchius.

Isso constitui um extraordinário exemplo de evolução convergente.

Linhas evolutivas diferentes, enfrentando ambientes sujeitos à dessecação periódica, desenvolveram soluções semelhantes.

Os adultos vivem e reproduzem-se durante a fase aquática.

Quando a água desaparece, os peixes adultos morrem.

Entretanto, os ovos permanecem no substrato e podem interromper ou reduzir seu desenvolvimento até que as condições ambientais voltem a ser favoráveis.

A poça desaparece.

A população aparentemente desaparece.

Mas biologicamente ela continua presente no solo.


Diapausa: sobrevivendo quando não existe água

Nos representantes anuais da família, o embrião tornou-se a verdadeira fase de resistência ambiental.

Durante o desenvolvimento podem ocorrer períodos chamados diapausas, nos quais o metabolismo e o desenvolvimento são profundamente reduzidos.

Esses mecanismos permitem que os ovos atravessem meses de seca.

Dependendo da espécie e das condições ambientais, diferentes trajetórias embrionárias podem ocorrer.

Para o criador de killifishes anuais, isso é extremamente familiar.

A turfa ou outro substrato de incubação retirado do aquário aparentemente contém apenas ovos.

Entretanto, dentro deles encontra-se a próxima geração inteira.

O que fazemos em cativeiro ao armazenar substratos contendo ovos é, em essência, uma reprodução controlada do fenômeno que ocorre no ambiente natural.


Nothobranchius: a especialização levada ao extremo

Dentro da família, Nothobranchius representa uma das radiações mais extraordinárias de killifishes sazonais.

Suas espécies ocupam principalmente áreas da África Oriental e centro-oriental, vivendo em ambientes que frequentemente existem apenas durante uma parte do ano.

Uma análise filogenética abrangente indicou uma origem ancestral do gênero na região Nilo-Sudanesa, seguida por dispersões e diversificações relacionadas às transformações geológicas e hidrográficas da África Oriental. Um estudo mais recente estimou a origem do gênero em aproximadamente 13 milhões de anos.

A formação e evolução do sistema do Rift Africano parece ter desempenhado papel importante nessa diversificação.

Elevação de terrenos, reorganização de rios, formação de novas bacias e isolamento de áreas úmidas criaram inúmeras oportunidades para que populações se separassem.

Com o tempo, essas populações isoladas deram origem a novas espécies.

Por isso encontramos atualmente inúmeras espécies e populações geograficamente restritas.


O isolamento explica parte da diversidade

Pequenos killifishes dificilmente atravessam grandes barreiras terrestres.

Quando uma população permanece restrita a determinadas poças, cabeceiras ou sistemas de drenagem, sua capacidade de intercâmbio genético com outras populações pode tornar-se extremamente pequena.

Esse isolamento favorece a diferenciação.

Em Nothobranchius, estudos indicam que grande parte da diversificação ocorreu por processos alopátricos, isto é, populações tornaram-se geograficamente separadas e progressivamente evoluíram de forma independente.

Esse mecanismo ajuda a explicar algo que todo criador experiente conhece muito bem:

a população de origem é extremamente importante em killifishes.

Duas populações classificadas sob o mesmo nome específico podem apresentar diferenças genéticas, cromáticas, morfológicas ou comportamentais importantes.

Por isso conservar corretamente os códigos e localidades de coleta não é simples preciosismo.

É uma forma de preservar unidades biológicas reais.


Os Nothobranchiidae das florestas

Nem toda a história da família ocorre em savanas e poças temporárias.

Uma enorme diversidade desenvolveu-se nas florestas úmidas da África Ocidental e Central.

Nesses ambientes encontramos muitos dos peixes tradicionalmente conhecidos pelos criadores como “aphyosemions”.

Pequenos riachos atravessando florestas densas geralmente apresentam iluminação reduzida, água relativamente rasa e grande quantidade de matéria orgânica.

Folhas, galhos e raízes estruturam o ambiente.

Em alguns locais, o fluxo é extremamente pequeno.

É nesse mosaico de micro-habitats que se desenvolveram inúmeras linhagens.

A aparente uniformidade de uma floresta tropical esconde uma enorme fragmentação hidrográfica.

Dois riachos separados por uma pequena elevação do terreno podem pertencer a diferentes drenagens e permanecer biologicamente isolados durante milhares ou milhões de anos.

Essa situação favorece extraordinariamente a especiação.


Callopanchax e uma segunda experiência evolutiva com a anualidade

O gênero Callopanchax, da África Ocidental, é particularmente importante para compreender a evolução da família.

Embora seus representantes sejam geograficamente muito distantes de Nothobranchius, algumas espécies também desenvolveram um ciclo associado a ambientes sazonais.

Análises filogenéticas dos Callopanchacini confirmaram a monofilia do grupo que inclui linhagens como:

Archiaphyosemion,

Callopanchax,

Nimbapanchax

e Scriptaphyosemion.

Mais importante ainda, esses estudos sustentaram a interpretação de que a anualidade de Callopanchax teve origem independente daquela observada no ramo relacionado a Nothobranchius.

Para quem cria killifishes, essa informação muda completamente a maneira de enxergar a anualidade.

Ela deixa de ser uma curiosidade exclusiva de um determinado grupo e passa a representar uma solução evolutiva que apareceu repetidamente quando determinadas linhagens passaram a ocupar ambientes sazonais.


Fundulopanchax: entre dois mundos

Fundulopanchax talvez seja um dos gêneros mais interessantes justamente porque apresenta estratégias de vida menos facilmente classificáveis.

Algumas de suas linhagens são historicamente consideradas não anuais, enquanto outras possuem forte capacidade embrionária de sobreviver períodos desfavoráveis.

Já em 1999, análises moleculares encontraram uma linhagem não anual basal dentro de um gênero no qual muitas outras espécies possuem diferentes graus de adaptação à sazonalidade.

Essa diversidade reforça que a anualidade não surgiu como uma transformação instantânea.

Provavelmente houve uma sequência de adaptações:

maior resistência dos ovos;

capacidade de retardar o desenvolvimento;

maior tolerância à hipóxia;

entrada em estados embrionários de baixa atividade;

e finalmente ciclos especializados capazes de atravessar uma estação seca completa.

A evolução raramente trabalha com divisões tão simples quanto as categorias que utilizamos para descrevê-la.


Epiplatys: outra estratégia dentro da mesma família

Enquanto Nothobranchius representa uma especialização extrema para ambientes temporários, Epiplatys seguiu outra direção.

Muitas espécies apresentam corpo alongado e boca orientada para a superfície, características associadas à exploração da camada superior da água.

Pequenos insetos que caem sobre a superfície constituem parte importante dos recursos utilizados por várias espécies.

Assim, dentro de uma mesma família encontramos tanto peixes especializados em sobreviver à completa ausência temporária de água quanto peixes especializados em explorar a interface entre água e ar.

Essa diversidade funcional é uma das características mais fascinantes dos Nothobranchiidae.


Principais gêneros

A composição exata da família pode variar de acordo com a hipótese taxonômica seguida e continua sendo revisada.

Entre os gêneros tradicionalmente ou atualmente associados ao grande conjunto dos Nothobranchiidae estão, entre outros:

Aphyosemion

Archiaphyosemion

Callopanchax

Epiplatys

Fundulopanchax

Fundulosoma

Nimbapanchax

Nothobranchius

Pronothobranchius

Scriptaphyosemion

Alguns autores reconhecem subdivisões adicionais, enquanto outros tratam determinados grupos em diferentes níveis taxonômicos.

Isso explica por que listas de gêneros encontradas em livros, artigos científicos e bancos de dados podem não ser completamente iguais.

Não necessariamente uma delas está simplesmente “errada”.

Muitas vezes elas representam hipóteses taxonômicas diferentes.


Aphyosemion e a complexidade da classificação

Poucos nomes demonstram tão bem a complexidade taxonômica dos killifishes africanos quanto Aphyosemion.

Durante grande parte da história da killifilia, inúmeras espécies africanas foram agrupadas sob esse nome.

Com o avanço dos estudos anatômicos, cromossômicos e moleculares, alguns conjuntos anteriormente tratados como subgêneros ou grupos de espécies passaram a ser reconhecidos separadamente.

Os trabalhos moleculares mostraram que muitas associações tradicionais estavam corretas, mas também revelaram situações nas quais a classificação histórica não representava adequadamente as relações evolutivas.

Isso ajuda a explicar a quantidade de mudanças nomenclaturais encontradas na literatura sobre killifishes africanos.

Para criadores antigos, um peixe pode continuar sendo lembrado pelo nome que utilizava décadas atrás, mesmo depois de sucessivas revisões científicas.


Nothobranchiini

Dentro dessa enorme diversidade existe um grupo particularmente especializado de killifishes sazonais africanos.

A tribo Nothobranchiini reúne gêneros como:

Fundulosoma

Pronothobranchius

e Nothobranchius.

Um amplo estudo morfológico analisou 138 caracteres, combinados a sequências de DNA, e encontrou forte suporte para a monofilia desse grupo. O estudo também recuperou Fundulosoma como linhagem irmã dos demais Nothobranchiini analisados.

Dentro de Nothobranchius, diferentes linhagens internas também podem ser reconhecidas.

Entretanto, essas subdivisões são matéria para o estudo específico do gênero e não precisam ser confundidas com a definição da família como um todo.


Família ou subfamília?

Quem consulta diferentes trabalhos científicos sobre esses peixes provavelmente encontrará uma aparente contradição.

Em alguns artigos aparece:

Nothobranchiidae

Em outros:

Aplocheilidae: Nothobranchiinae

Isso ocorre porque existem diferentes propostas para organizar os Aplocheiloidei.

Uma classificação reconhece três grandes famílias:

Aplocheilidae

Nothobranchiidae

Rivulidae

Outra possibilidade é utilizar Aplocheilidae em sentido mais amplo, incorporando parte desses grupos em níveis de subfamília ou tribo.

Por isso alguns artigos científicos modernos sobre Nothobranchius ainda podem utilizar Aplocheilidae em vez de Nothobranchiidae.

Não se trata necessariamente de erro.

Trata-se de diferença no nível hierárquico atribuído às mesmas grandes linhagens evolutivas.

Para as fichas taxonômicas da UBK adotamos Nothobranchiidae Garman, 1895 como família, mantendo uma estrutura clara:

Aplocheiloidei

→ Aplocheilidae

→ Nothobranchiidae

→ Rivulidae

Essa organização também facilita a compreensão pelo criador.


Nothobranchiidae e Aplocheilidae

Apesar de separados como famílias nessa classificação, os dois grupos são parentes próximos.

Os Aplocheilidae atuais incluem principalmente Aplocheilus, do sul e sudeste da Ásia, e Pachypanchax, de Madagascar e ilhas próximas.

Os Nothobranchiidae representam a grande radiação continental africana.

Dados genômicos estimaram sua separação em aproximadamente 52,9 milhões de anos.

Esse resultado possui enorme importância biogeográfica.

Ele demonstra que compreender a distribuição atual dos aplocheiloides exige considerar eventos ocorridos dezenas de milhões de anos depois do início da fragmentação de Gondwana.

Consequentemente, as antigas explicações baseadas exclusivamente em deriva continental tornaram-se insuficientes.

Dispersões, extinções e posteriores isolamentos geográficos provavelmente tiveram papel importante na formação da distribuição atual do grupo.


Uma família extraordinariamente importante para a ciência

A importância dos Nothobranchiidae ultrapassou há muito tempo a taxonomia e a aquariofilia.

Especialmente algumas espécies de Nothobranchius tornaram-se organismos-modelo para estudos sobre:

envelhecimento;

longevidade;

diapausa embrionária;

biologia do desenvolvimento;

genética;

evolução;

adaptação a ambientes extremos;

regeneração;

fisiologia;

e doenças associadas à idade.

A razão é simples.

Algumas espécies possuem ciclos de vida extremamente rápidos.

Em ambientes naturais, precisam crescer, atingir maturidade, reproduzir-se e deixar ovos resistentes antes que sua poça desapareça.

Esse ritmo transformou determinados Nothobranchius em alguns dos vertebrados mais interessantes para pesquisas sobre envelhecimento.

Curiosamente, o que para nós, criadores, sempre foi uma extraordinária adaptação de um killifish anual tornou-se uma poderosa ferramenta científica.


Uma explosão de cores

Para a killifilia, entretanto, é impossível falar de Nothobranchiidae sem mencionar sua impressionante diversidade cromática.

Machos podem apresentar:

vermelho intenso;

azul metálico;

amarelo;

laranja;

turquesa;

verde;

negro;

faixas;

pontos;

reticulações;

margens coloridas nas nadadeiras;

e combinações extraordinariamente complexas.

O dimorfismo sexual pode ser intenso.

Em várias espécies, fêmeas discretas compartilham o ambiente com machos que estão entre os peixes de água doce mais coloridos do planeta.

Grande parte dessa ornamentação está relacionada à seleção sexual.

As cores ajudam machos a competir por territórios e fêmeas e participam dos processos de reconhecimento e escolha de parceiros.


A importância da localidade para a killifilia

Talvez em nenhuma outra área da aquariofilia ornamental o conceito de população seja tão valorizado quanto entre criadores de killifishes.

Nomes como:

“localidade”,

“população”,

“código de coleta”

e “collection code”

fazem parte do cotidiano da killifilia.

Isso possui uma razão biológica.

Muitas populações de Nothobranchiidae estão geograficamente isoladas.

Uma única espécie pode possuir diferentes populações separadas por rios, elevações, savanas, florestas ou simplesmente por sistemas hidrográficos distintos.

Ao misturarmos artificialmente essas populações em cativeiro, podemos eliminar combinações genéticas que levaram milhares de anos para se formar.

Por isso uma das tradições mais importantes da killifilia mundial é:

não misturar populações de procedências diferentes apenas porque pertencem à mesma espécie.

Preservar uma população corretamente identificada significa conservar muito mais do que um padrão de cor.

Significa conservar parte da história evolutiva daquela espécie.


Da floresta úmida à poça que desaparece

Talvez nenhuma imagem sintetize melhor os Nothobranchiidae do que colocar lado a lado dois ambientes.

De um lado, um pequeno riacho sombreado atravessando uma floresta africana.

Folhas cobrem o fundo.

Raízes entram na água.

A iluminação é baixa.

Pequenos Aphyosemion ou outros representantes florestais vivem entre a vegetação e a serrapilheira.

Do outro lado, uma depressão aberta na savana.

Durante as chuvas transforma-se em uma poça cheia de vida.

Poucos meses depois, resta apenas solo seco e rachado.

Nenhum peixe adulto é visível.

Mas enterrados naquele solo existem ovos de Nothobranchius esperando pelo retorno das chuvas.

Dois ambientes completamente diferentes.

Duas estratégias de vida completamente diferentes.

E uma mesma grande família evolutiva.


Uma das famílias fundamentais para compreender os killifishes

Para o criador, estudar Nothobranchiidae ajuda a compreender que o termo “killifish africano” esconde uma história muito mais complexa do que parece.

A família reúne linhagens que passaram dezenas de milhões de anos evoluindo em ambientes extremamente diferentes.

Algumas permaneceram associadas a pequenos cursos d’água permanentes.

Outras colonizaram florestas alagáveis.

Algumas especializaram-se na superfície.

Outras transformaram seus embriões em estruturas capazes de sobreviver meses sem água.

A anualidade surgiu mais de uma vez.

As florestas dividiram populações.

Savanas expandiram-se e retraíram-se.

Rios mudaram de curso.

O Rift Africano modificou paisagens inteiras.

E cada um desses acontecimentos deixou marcas na distribuição e na diversidade que observamos atualmente.

Quando mantemos um Aphyosemion, um Fundulopanchax, um Epiplatys ou um Nothobranchius, portanto, não estamos simplesmente mantendo diferentes tipos de peixes ornamentais africanos.

Estamos mantendo descendentes de uma das mais extraordinárias radiações evolutivas entre os pequenos peixes de água doce.

Em resumo

A Família Nothobranchiidae Garman, 1895 reúne uma grande linhagem de killifishes africanos pertencentes à subordem Aplocheiloidei.

Seu nome foi estabelecido a partir de Nothobranchiinae, criado por Samuel Garman em 1895, tendo Nothobranchius Peters, 1868 como gênero-tipo.

A família apresenta enorme diversidade ecológica e inclui tanto espécies de ambientes permanentes quanto representantes fortemente especializados em ambientes temporários.

A condição anual não caracteriza toda a família e aparentemente evoluiu independentemente em diferentes linhagens africanas, incluindo Callopanchax e o ramo relacionado a Fundulopanchax e Nothobranchius.

Estudos genômicos indicam ainda uma antiga separação entre Nothobranchiidae e os Aplocheilidae indo-malgaxes, além de uma profunda divergência entre grandes linhagens africanas ocidentais e orientais.

Essa combinação de história evolutiva, extraordinária diversidade de espécies, diferentes estratégias reprodutivas e enorme importância para a aquariofilia faz dos Nothobranchiidae uma das famílias fundamentais para compreender o universo dos killifishes.