A reprodução do Oditichthys cryptocallus (o antigo Rivulus cryptocallus) é uma excelente porta de entrada para quem deseja se aprofundar na criação de killifishes não-anuais. O próprio nome da espécie, derivado do grego (kryptos = oculto; kallos = beleza), já dá a dica: é um peixe de beleza sutil, que brilha quando mantido nas condições corretas.

1. A Desova

Diferente da maioria dos peixes que desova no fundo ou no meio da água, o O. cryptocallus gosta de colocar os ovos no limite da superfície ou até fora d’água, em substratos úmidos.

  • O Mop (ou bruxinha): Faça um mop de lã acrílica curta e amarre-o em uma rolha de cortiça grande o suficiente para que uma boa parte fique emersa. Um quadrado de isopor funciona muito bem. Os peixes vão literalmente se jogar sobre a rolha ou isopor e a parte superior do mop para depositar os ovos.
  • Os ovos são grandes (cerca de 1,7 mm) e fáceis de manusear.

2. Coleta e Incubação

Por ser um killifish não-anual, não precisamos secar os ovos na turfa por meses. O desenvolvimento é contínuo.

  • Coleta: Inspecione o mop a cada dois ou três dias. Retire os ovos com os dedos (eles são rígidos e não estouram fácil), pode-se usar umaq pinça também. Obs.: Claro que lavar bem as mãos é interessante neste caso.
  • Incubação na Água: Coloque-os em um pote pequeno (ex: pote de margarina ou placa de Petri) com a água do próprio aquário dos pais. Adicionar uma gota de fungicida suave (como Acriflavina) ajuda a proteger os ovos saudáveis caso algum ovo infértil fungue.
  • Ovos fungados devem ser retirados o mais breve possível. O ovo sadio deve ter aparência transparente, ovos brancos estão fungados e devem ser retirados.
  • Incubação Semi-úmida: Você também pode incubá-los sobre uma cama de Musgo de Java úmido em um pote fechado.
  • Tempo: A eclosão ocorre naturalmente em cerca de 3 semanas (21 dias), dependendo da temperatura.
  • Se possível, vá separando os alevinos conforme nasçam para um recipiente maior com a mesma água do aquários dos pais.

Nota: Pais bem alimentados raramente comem os próprios ovos ou alevinos. O “método natural” (deixar nascer no próprio aquário dos pais e recolher os filhotes na superfície) funciona bem se houver muito musgo de java, mas a coleta manual sempre rende mais.

3. Criação dos Alevinos

Assim que nascem, os filhotes vão direto para a lâmina d’água superior.

  • Alimentação Inicial: Eles já nascem com tamanho suficiente para comer náuplios de artêmia recém-eclodidos. Microvermes também são aceitos, mas como afundam rápido, a leve movimentação da água ajuda a jogar os vermes de volta para cima, onde os alevinos caçam. Verme do vinagre é um alimento interessante também, pois nada por toda a coluna d´água e muitos permanecem na superfície, mas lave-os bem para evitar alterar o pH da água.
  • Crescimento: É muito rápido. Mantenha potes destampados e cuidado extra, pois eles começam a saltar muito cedo. Com 6 semanas já é possível identificar os sexos. Com 3 meses de vida (uma fração mínima do seu potencial de 3 anos e meio), já estarão prontos para iniciar um novo ciclo reprodutivo.
  • O sex ratio pode ser bem desigual pendendo

4. Sex Ratio

Em cativeiro, o criador pode facilmente se deparar com uma geração composta por 90% de machos ou 90% de fêmeas, o que coloca a continuidade da população em risco.

Isso ocorre porque, em muitos Cyprinodontiformes (incluindo rivulídeos caribenhos como o Oditichthys cryptocallus), a definição do sexo do embrião não é um destino estritamente genético e imutável. Ela sofre forte influência externa nas primeiras fases de vida, um mecanismo biológico conhecido como Determinação Sexual Ambiental (ESD).

Os dois gatilhos principais que desequilibram o sex ratio no aquário são:

  • Temperatura (Fator Principal): Ovos incubados e alevinos mantidos em temperaturas mais altas (geralmente acima de 26°C) tendem a masculinizar a ninhada. Por outro lado, temperaturas mais brandas (22°C a 24°C) durante o desenvolvimento inicial favorecem a formação de fêmeas.
  • pH da Água: Embora secundário em relação à temperatura, águas excessivamente ácidas costumam puxar a proporção para uma predominância de machos, enquanto águas mais próximas da neutralidade ajudam no equilíbrio.

A estratégia prática de manejo:

Na natureza, um riacho possui gradientes térmicos (áreas sombreadas mais frias e poças rasas aquecidas pelo sol), o que garante naturalmente uma proporção viável entre os sexos. Em estufas, onde o ambiente é altamente controlado e estável, nós anulamos essa variação.

Para não perder a linhagem, a regra é fracionar a incubação. Ao coletar os ovos ao longo do mês, divida-os em lotes. Incube um recipiente na prateleira mais baixa e fria do seu fishroom e outro em uma prateleira mais alta e quente. Essa simples simulação da assimetria ambiental garante a produção de ambos os sexos, assegurando a viabilidade genética da população sem precisar de intervenções complexas.

Por fim, não esqueça de manter registros de qual ilha ou bacia (ex: Ravine Vilaine, Martinica) seus peixes vieram e jamais misturá-los com populações de outras localidades é a regra de ouro da killifilia. Reproduzir é fácil; manter a linhagem pura por décadas é onde separamos os criadores dos simples mantenedores.

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